Depois que ele decidira trapacear no jogo, em se tratando de uma pessoa ainda muito jovem, recebeu um presente inesperado: não conseguiria construir um pensamento sem gaguejar. Também o sol ficou distante da terra, e uma chuva fina não parava de cair. O rapaz adorava a luz quente em seu quarto.

O problema era que ele não sabia como se redimir perante os Deuses da Natureza. E o pior: foi brincar logo com A Toda Poderosa.

Parecia um pesadelo, ele havia programado para o dia seguinte o seu primeiro encontro. Tudo corria bem como o planejado: os pais estariam em viagem demorada, o irmão mais velho em uma excursão científica. A casa vazia, um perfeito ambiente para as grandes descobertas.

Precisaria de uma pessoa mais experiente para ajudá-lo; ligou para o irmão mais velho, relatou o que estava acontecendo, pediu desculpas, disse que estava arrependido e que gostaria de consertar o erro. O irmão quase não falou, resmungou alguma coisa como: “procura um oráculo”.

Lembrou-se do seu Onofre, era o senhor que ficava parado, guardando o portão da antiga fábrica. Quem precisava de um conselho levava um prato com alguma comida, descia até o final da rua, entregava para o velho.

Correu para a cozinha, abriu a geladeira, não encontrou nada. Abriu o armário e só encontrou pacotinhos de pipoca para ir ao micro-ondas. Que me..me..meeeerda e agora? Resolveu que levaria dois pratos cheios de pipoca. Preparou tudo, escolheu os pratos mais bonitos, encheu-os e desceu em direção ao seu Onofre.

As pipocas começaram a cair dos pratos, e logo uma fila de galinhas se formou atrás dos seus calcanhares. Quando chegou perto do velho, já tinha a companhia de umas dez galinhas. Seu Onofre riu contido. O rapaz se aproximou, cumprimentou o velho, estendeu as mãos, entregando-lhe os pratos. Onofre pegou somente um dos pratos. Disse ao rapaz que levasse o outro e colocasse na frente da porta da casa. O rapaz ficou calado, meio assustado, pois nunca ouvira a voz do idoso e, tampouco, que alguém havia ouvido. Em seguida, disse que era para o rapaz devolver o poliedro que guardara no bolso. O rapaz não se lembrava do ocorrido. Nunca deveria ter brincado com coisa séria, mexer no tempo e na memória dos mortos. Resolvido o imbróglio, voltou para casa sozinho, as galinhas ficaram.

Fez com o cuidado devido o que lhe fora recomendado. Depois, tentou recuperar a imagem do senhor guardador do portão da antiga fábrica, mas o sol apareceu com muita força, impedindo a visão do final da rua.

Sem perceber, uma canção começou a sair, sem atropelos sonoros, de sua garganta: “Eleanor Rigby”.

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