Era uma manhã fria e incomum, daquelas de tons cinzentos e ventos assaltando portas e janelas, impertinentemente. Eu não queria sair de casa e muito menos da cama naquele dia. Meu pai já estava na cozinha preparando a refeição matinal quase sem emitir ruido algum. Só percebi pelo cheiro forte do café.

Era um dia soturno, como em todos os anos. O mês de junho já tinha outras marcas para nós, mas essa era a mais profunda, visível de qualquer distância. Meu melhor amigo e que me ensinou a jogar xadrez e empinar pipas morrera há três anos. Ainda não havíamos superado, obviamente…Meu pai foi quem mais calado ficou. Um pai jamais deveria enterrar um filho, ainda mais aquele. Ainda acho que ele preferiria que tivesse sido eu, apesar de negar algumas vezes me olhando firme nos olhos com as mãos sobre meus ombros. Foi-se meu irmão mais velho, minha referência.

Certo, não havia escapatória, eu já tinha tentado antes nos livrar dos procedimentos e não o convenci. Levantei de uma só vez, abri a porta do quarto e sem falar nada o abracei. Choramos uns segundos e ele me deu o tradicional tapa na cabeça e disse-me “Somos só eu e você, filhão. Vamos enfrentar juntos, a partir de hoje, cada barreira que surgir a nossa frente. Eu te amo e preciso da sua ajuda”. Aquelas palavras me pegaram de surpresa, ele nunca havia dito algo tão simples e compreensivo para um filósofo tradicional e homem afeito a frases curtas e de impacto. Era seu coração falando pela primeira vez e não seu intelecto racional e revestido de razão. Eu sorri com um pedaço de bolo aparecendo entre os dentes. Ele apontou e riu alto. Olhei no espelho e ambos subimos alguns degraus na escala do sentimento agradável. Estávamos precisando…muito.

Nos aprontamos e pegamos um taxi. O motorista era falante e alegre e antes de fazer a curva da nossa rua ele perguntou o destino. Falamos. Ele emudeceu por completo. Eu até pensei em quebrar o silencio que formou-se, mas não tive forças. Foi melhor assim.

Chegamos ao inevitável destino. Pagamos e o motorista murmurou algo que me pareceu um “eu sinto muito” ou algo assim. De frente para o enorme portão com uma inscrição também grande acima, estava: Reverte Ad Locum Tuum. Eu já sabia. Meu pai, da primeira vez, tinha traduzido para mim. Algo como Voltar ao Local de Origem, Do pó vieste e ao pó retornarás e outras interpretações a mais, todas bizarras, mas para ele tão comuns quanto uma frase de Friedrich Nietzsche.

Congelados estávamos, por minutos, na entrada. Acho que meu pai rezava pois estava de olhos cerrados e mãos juntas. Nada mais estranho para um amante dos questionamentos e um perseguidor de religiões. Preferi não interromper. Entramos, nos dirigimos ao sepulcro e ele, para espairecer ou por algum outro motivo, tratou de ficar rodeando, tirando folhas, afastando pequenas sujeiras com os pés e sussurrando. Estava certamente “conversando” com meu irmão. Eu preferi abrir o livro que ele mais gostava – Fernão Capelo Gaivota – e aleatoriamente ler um trecho em voz alta. Meu pai parou ao meu lado e me acompanhou, com seu braço pesado sobre meus ombros.

Em meio ao céu blocado de chumbo desceu um raio de sol ofuscante sobre o local onde estávamos, cobrindo vários sepulcros ao nosso redor. Paramos a leitura, pasmos e um grande sorriso surgiu no rosto daquele homem machucado, com marcas fortes de expressão. Ele olhou para cima e disse “Obrigado, meu filho. Nós também te amamos e vamos cuidar um do outro, pode ficar certo disso”. Era o sinal que ele tanto procurava e talvez eu também. Sorri igual, largamente.

Nos abraçamos e fomos embora, leves e certos de que nunca mais seria um dia soturno e muito menos evitável…

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