O crepúsculo já se adiantara e agora tudo estava coberto de um tom arroxeado. Estava encolhida contra o muro, enfiada no meio de um arbusto de raízes molhadas. Seus pés estavam meio afundados na lama do chão, assim como sua bunda. Não tinha problema, mesmo que a umidade do terreno banhacento lhe tomasse um pouco o corpo, era verão e estava quente.

Os grilos cricrilavam ao seu redor, eram os únicos a perturbar o silêncio que ali fazia. Os primeiros vaga-lumes da estação abriam caminho entre as folhagens e era lindo, mas admirava-os com um pouco de medo. Que não chegassem perto demais do seu rosto, ou seu brilho poderia trai-la.

Fechou os olhos, invadida pelo silêncio inebriante. Era um pouco de paz, aquela quietude. Fazia conforto dentro dela. Será que Mateus também estava vendo os vaga-lumes? Será que os veriam juntos uma vez mais, enquanto contavam seus sonhos de uma vida muito diferente da que levavam agora?

Ouviu passos no asfalto, que parecia muito distante. Uma corrida organizada que seguiu em frente, antes de o silêncio voltar. Agora ele já não aconchegava, oprimia.

Rezou um pouco. Não era seu costume, nem tinha crenças, mas era uma forma de se agarrar a vida. O medo tinha seu ápice naquele momento. Vivia com medo.

Quem discordava do Imperador Funus não podia sair impune. Alguns eram mortos em praça pública, os que se destacavam em atos de contestação direta. Aqueles que faziam uma oposição mais velada eram eliminados na surdina. Só que todo mundo sabia.

Não era preciso muito. Não fora preciso muito para que se vissem ali escondidos, ela no banhado, Mateus só ele sabia onde. Tinham contrabandeado alguns tratados de filosofia para a Universidade, uma organização de estudiosos e pensadores que vivia nas sombras, tentando manter o que sobrara do conhecimento humano de milênios longe das mãos dos sensores.

Só se tinha acesso a informação na Intrarede e era muito diferente dos antigos livros, da poesia e da arte que se fazia antigamente. As mentiras que contavam, as coisas vazias que se disseminavam… Tudo isso dava-lhe nojo. Mas tinha pena das pessoas, escravizadas na futilidade de suas vidas sem brilho, vivendo como gado. Sim, uma música que ela encontrara, uma gravação antiga, tinha uma música sobre isso. Viver como gado.

Ainda não sabia como tinham descoberto a transação, devia haver algum espião por perto. No entanto, tiveram a sorte de descobrir, por causa do grampo, que as tropas tinham sido mandadas até eles.

O grupo se dividira, era cada um por si. Se ficassem juntos, era pior, eles achavam todos, morria todo mundo. Foi assim que se viu separada de Mateus.

Súbito, um estouro distante. E a chuva começou. Mil trovões explodiram em seus ouvidos. Eram distantes, mas tão próximos, a consumindo… Chorou, apertando a boca com a própria mão, sentindo-se covarde e estúpida, encolhida no banhado do terreno baldio.

O silêncio voltou vermelho e nem os grilos ousavam perturbá-lo. Depois de muito tempo tremendo, a aurora se insinuou e ela se levantou, suja, molhada de orvalho e de lágrimas. Não sabia se encontraria Mateus e estava com medo de descobrir. Mas o medo nunca a impedira de agir. Foi adiante, apertando as mãos cheias de terra. A luta não teria acabado. A Universidade tinha membros espalhados em todo o lugar. Conhecimento é poder e com ele, eles conseguiriam, em algum momento, derrotar a tirania de Funus.

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