Encontrei o número trinta e oito na Rua Andaluzia e depois de apertar o interfone e subir as escadas foi que abriu as portas com um leve rangido, deixando entrever um grosso pano de blusão cair sobre seus dedos. Entrei sentindo um vácuo no chão cinza claro. Meu ombro direito era o único que me lembrava que ainda tinha um corpo sustentando parte dos meus pertences: um punhado de moedas, uma passagem do transporte público, um livro de anotações e mechas de cabelos pontiagudos. Ela foi me mostrando o apartamento sem muito cerimônia, indicando com os dedos finos -manchados de cigarro- a cozinha, os quartos e um banheiro diminuto, porém reformado e luminoso. Duas sacadas que contornavam o apartamento e alguns vizinhos do outro lado da rua. O quarto livre tinha paredes de madeira parecendo uma espécie de cabana, o colchão era velho e havia uma grande sacada que no inverno congelava o coração mais quente. Nao tinha armário, mas caixas de frutas poderiam funcionar. Depois de alguns dias, muitos paquistaneses cenderiam caixotes de plástico de verduras. Da sacada do quarto não se via, mas o bar da esquina cubano serviria tequila e o vizinho da praça há 50 metros a convidaria para encontros gastronômicos na sala de estar. E mais tarde em encontros íntimos no quarto, no banheiro e de volta para a sala. Meu rosto mudaria de cor depois daquilo. Meu coração mais apertado. Nunca mais encontraria Mateus depois daquela fuga.

Após o itinerário, voltamos para a sala. Comecei a reparar nas fotos de mulheres na parede atrás do sofá castigado. Mulheres num fundo preto, batom vermelho, desejando a minha atenção.

-— Tire-me daqui! — gritou uma voz inconsciente. O sofá rasgando e de repente nós assistindo filmes, minha mãe abraçada comigo. Pelos de cachorros. Saudades de casa. Doenças pronunciadas. Cristais de açucar imperceptíveis. Marcas de pele de um verão mediterrâneo. Leituras e manchas de vida incrustadas num sofá.

Até que um dia conseguimos trocá-lo por um sem buracos.

Você fuma? — ela perguntou.

Fitei-a de maneira positiva.

Gosta daqui? jogando uma baforada de cigarro.

Com ar de resignação — respondi-lhe que parecia um pouco longe.

Zona periférica com muitas lojas fechadas na crise econômica. Vizinhos que se conheciam numa cidade vitrine. Com ancianas de mechas roxas no cabelo que não queriam que você carregasse a compras na subida de escadas. Os andares altos eram os meus preferidos e os castanheiros-da-índia que abafava o asfalto da ruela. Um lugar cinzento vivo. Escondido pelas vias do trem.

-— Tem metrô na esquina. Não viu? -— levantando as mãos para consumir outro cigarro. Enquanto a voz dela se propagava baixinho entrecortada por uma fumaça de cigarro, sentava-me a dois palmos de distância da sua companhia, armei um cigarro para acompanhá-la, desajeitando as folhas de tabaco no pacote enquanto falava sobre o minhas atividades, meus gostos, sem se importar com opinões alheias. Aliviei meu ombro, depositando minha bolsa na quina do sofá. Tinha um rolo com um garoto, mas não considerava importante. Coisa de meses para terminar. Não cheguei a mencioná-lo. Ela com uma garota e às vezes com algum garoto. Por um ano ficou ouvindo gritos pela noite. Nada disso foi considerado de importância e, assim, foi descartado para as próximas conversas.

O cachorro aproximou-se com seu focinho perto de mim.

Sai daí, Lobo! — disse ela. O cachorro voltou para sua caminha com uma orelha levantada e a outra apontando para baixo.

Fiz carinho na cabecinha do Lobo flexionando levemente os joelhos.

Ele não dá trabalho. Não se preocupe com os pelos — pronunciou apagando a última butuca.

Peguei minha bolsa e fitei de novo o batom vermelho da mulher fixada na parede, piscando os olhos e baixando minha cabeça depois de lembrar de alguma imagem que tomou conta daquele espaço, daquele apartamento. Ignorei.

Ela ergueu-se. As costas dela, levemente encurvadas, davam uma sensação de aparente leveza, quase morte. Nao fazia nada de ruído enquanto se movia. As paredes brancas e a mesa de madeira e algumas cadeiras tinham mais presença que ela. Que nós.

 

Na porta do quarto dela que se via da sala estava pendurado o desenho de um olho. Esta figura tinha um formato de um cisnei no fundo de um lago ressecado. Nao dava para mergulhar nele. Para apaixonar-se, para confiar. Nem para afogar-se

Quem te deu? — perguntei.

Alguém que um dia fui — retrucou olhando pra baixo.

Quando você pode se mudar?

Bati a porta e corri em direção ao metro.

Não refleti sobre os tubos antigos que se romperia e o inverno que penetraria entre as frestas das janelas da sala, do meu quarto, naquele lugar, agarrando-se ao corpo junto aos meus últimos anos de juventude.

Crédidos da imagem: Louis Berthommé-Saint-André “Two girls at the sofa”.

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