É a terceira ou quarta vez que aquele homem entra novamente pela porta, que sem demonstrar nenhum sinal de cansaço range sua canção dissonante ao compasso de um blues suave dos anos 60 que tocava ao fundo no antigo rádio a pilha encostado no canto da cozinha. Ele parece cansado enquanto esfrega soda caustica no chão, os nós dos dedos já embranquecidos, gotas de suor escorriam de sua testa e se misturavam ao líquido viscoso que jazia no chão.

O desespero parecia tomar conta, o produto de limpeza parecia sua última esperança, nas outras vezes que entrara pela porta trouxera detergente comum, desinfetante, cândida, álcool e palha de aço, mas também não pareceu funcionar. Aquilo que ele tentava, em vão, limpar parecia se misturar e grudar mais ao assoalho de madeira, como se não quisesse sair dali, como uma mancha no passado de um homem, algo que não se apaga tão fácil.

Ali perto podia-se ver uma lixeira velha num beco, algumas horas atrás vazia de dejetos, mas agora, ali havia um saco preto enorme, quase transbordando seu conteúdo infame, o sol ali não chegava, mas o calor da tarde o fez atrair as moscas em busca do fruto fresco para botarem seus ovos e suas larvas descendentes se alimentarem bem. O caminhão de lixo demoraria a passar, mas o homem que agora terminava de limpar o chão já havia pensado em tudo, ninguém iria suspeitar daquela lixeira.

O blues acaba, e dá lugar a um rock clássico e calmo, o senhor dá uma última passada de pano no assoalho, que agora estava gasto e com verniz um pouco corroído devido a grande mistura de produtos que foram usados nele, terminou a limpeza, se levanta e suspira, o ar que entra pelas narinas cheira a armário de faxineira de colégio, uma mistura de aromas tão densa que parece queimar os pelos do nariz. Ele então se dirige a cozinha e desliga o rádio, o local é tomado pelo som da rua, o barulho dos carros, caminhões, motos, buzinas e a obra que estava acontecendo há pelo menos seis meses no prédio da esquina. Acabara de voltar à sala de estar para observar a lixeira onde havia descartado o saco de lixo, em um criado-mudo próximo a janela há um pequeno porta-retrato que reflete a luz do cômodo, na foto há um jovem de vinte e cinco anos e uma bela mulher que não passava dos vinte e um. Ele olha para fora, na esquina há um açougue, ainda aberto apesar do horário e do pouco movimento, ao fim da rua pode-se avistar o caminhão de lixo vindo na direção do prédio, em sua jornada diária e sua velocidade controlada, em poucos minutos ele passa, recolhe o conteúdo da lixeira e segue seu trajeto pela noite. O homem comemora em silêncio o seu triunfo, e sua escapada. Tudo decorreu-se em apenas uma tarde, e a única testemunha de seus atos fora seu velho apartamento.

Anúncios