Você diz que ama a chuva,
mas você abre seu guarda-chuva quando chove.
[…] É por isso que eu tenho medo.
Você também diz que me ama.

SHAKESPEARE, W.

*

Alguns costumam dizer que as paredes têm ouvidos, e exatamente por isso todos acabam sabendo da vida do outro mesmo que os segredos mais obscuros continuem guardados a sete chaves dentro do íntimo de cada um. A meu ver, não é bem o dom de ouvir que as paredes possuem. Pois como se escuta um segredo não dito e que está – como eu bem disse – trancado a sete chaves no mais escondido dos baús? Chega a ser imbecilidade pensar dessa maneira, convenhamos.

O meu prédio, por exemplo. Vivo nele há tempo demais para conseguir entender as nuances de cada rachadura, de cada buraquinho na parede, de cada bolor novo – e velho. Não que eu seja uma velha. Sessenta anos, em pleno século XXI, com tudo do bom e do melhor que ele tem a oferecer com uma aposentadoria muito mais que digna – e não, não vou dizer a você o quanto recebo mensalmente, pois não é da sua conta – não me permite ser uma pessoa velha. As pessoas se referem a mim como “a senhorinha do vinte e três”, é verdade, mas é porque eu sou a que possui mais idade por aqui. Principalmente depois que o dona Ermínia passou dessa para pior. Sim, pior, pois aquela lá era o capeta em terra, e com certeza em vez de ascender como qualquer alma faria, foi é mesmo se juntar ao seu saudoso Estrela da Manhã (Lúcifer, para os íntimos como ela).

Falei de dona Ermínia, pois era justamente ela quem era as famigeradas paredes “ouvideiras”. Ela usava um estetoscópio a tira-colo; já o tinha visto das muitas vezes em que a visitara, repousando de maneira plácida e inocente na mesinha da sala, bem ao lado do sofá. E por não ser uma criatura nada surda – pois o capeta nunca mandaria um seguidor seu com algum defeito que atrapalhasse infernizar a vida alheia –, além de não ter sequer passado em frente a uma faculdade de técnica em enfermagem, dona Ermínia só tinha um propósito para aquele aparelho tão sensível: ser os ouvidos das paredes do prédio.

No meu prédio, ninguém gosta muito de ficar pelos corredores. Há bolores demais nas paredes, resultado de infiltração pela antiguidade em que decidimos morar e também pelas épocas de chuva que é mais frequente do que eu poderia admitir gostar. Portanto, o costume dela era transitar pelos corredores, os pés leves como plumas e mãos ágeis para encostar o bendito – ou maldito, dependendo do ponto de vista – estetoscópio nas paredes. E assim ela sabia da vida de todos e fazia seu folhetim diário de informações a quem quisesse saber (e em pleno século XXI, com tantas coisas para fazer, muitas pessoas perdiam tempo se atualizando com dona Ermínia).

Mas depois que ela se foi… Bem, aí então eu que fui a fonte de informações do prédio inteiro.

Não me entenda mal. Não faço o tipo fofoqueira. Pessoas que fazem fofocas simplesmente querem ver o circo pegar fogo com palhaço e tudo dentro. O que eu quero é informar o palhaço de que a lona está em chamas. E se com isso também avisar o malabarista que está bem seguro no bar da esquina, que diferença faz? O circo está pegando fogo mesmo e eu não posso impedir. Entendeu a diferença? Bem sensível, é verdade, mas ela está lá.

Só que, bem diferente de dona Ermínia, eu não uso o estetoscópio dela. Acho isso um desrespeito com meus vizinhos. O meu dom – e me orgulho sim ao falar dessa maneira – é ler o que as paredes me informam, e, com elas, as pessoas.

As paredes do meu prédio dizem, principalmente, o quanto ele é velho (rachaduras, buracos, mofos e bolores, com já o disse). Falam também que o moço do dezenove gosta de empurrar a mulher contra a parede; que a coitada do vinte e dois sempre suja as mãos depois de uma noitada do bar da esquina (com o quê, eu realmente prefiro não falar); que a recém-moradora do quarto andar só quer saber de se esconder. Mas as paredes que eu leio só me complementam uma coisa e outra. O que eu realmente consigo ler são as pessoas.

Não é tão difícil lê-las, ainda mais com sessenta anos. Com essa idade, e com minha experiência de casamento, você aprende uma coisa ou duas se possuir o mínimo de inteligência.

Então, quando o seu Juca do andar de cima apareceu todo cheio de sorrisos numa manhã comumente chuvosa, eu achei estranho. Ou talvez eu não devesse achar, já que um rapaz tinha subido sorrateiramente até o apartamento dele – não que eu estivesse espiando, só coincidiu que o rapaz, de um sorriso bonito no rosto um tanto magro, estava subindo pelas escadas e eu estava descendo para jogar o lixo fora. E, bem, eu sabia da preferência do seu Juca (todos no prédio sabiam, embora ninguém comentasse – mesmo em pleno século XXI). Portanto, o sorriso do seu Juca, mesmo que ele sempre resmungasse da chuva excessiva, era compreensível.

Eu sorri para ele, também, desejando-lhe bom dia, acompanhando-o pelos degraus.

— Belo dia, não? — eu arrisquei. Não que desejasse saber um pouquinho mais do motivo da alegria do seu Juca. Só queria saber até onde a chama da lona alcançava.

— Um pouco chuvoso, em minha opinião. Mas nada que atrapalhe a vida da gente se tivermos um bom guarda-chuva. Não acha, dona Rita?

— Com certeza. Mas não vejo nenhum guarda-chuva nas mãos do senhor.

— Ah, eu precisei jogar ele fora, ontem a noite. Estava quebrado e todo manchado.

— Quebrou? Mas ele era tão bom! Lembro do dia que o senhor comprou, semana passada. Todo orgulhoso porque ele era grande, firme, e com aquela pontinha de ferro para ajudá-lo a andar nas calçadas molhadas. E por apenas R$9,90!

— Pois bem, quebrou. R$9,90, não é?

— E manchou com o quê?

— Sangue — ele deu de ombros e eu quase tropecei no último lance de degraus. — Fui eu que caí em cima dele, sabe? Mas antes acabei chutando, sem querer, é claro, e mesmo ele sendo tão bom para mim. Fiz bom uso quando era útil. Mas depois não serviu mais. Afinal, estava quebrado — ele completou.

Como eu disse, eu sei ler muito bem as pessoas. Um dom que eu não saio espalhando por aí também. Então, quando vi os olhos azuis do seu Juca brilharem de uma maneira muito esquisita e que eu só via atores de filmes de terror conseguirem reproduzir, eu apenas sorri de volta para ele e acenei – embora sentisse cada músculo velho meu doer e protestar.

— Que pena que precisou se livrar dele. Eu achava ele bonito.

— Pois é, eu também. Mas a vida segue. Logo mais consigo outro.

Espero que não, pensei. Porém apenas balancei a cabeça de novo, concordando com ele.

A gente se separou no portão do prédio, cada um seguindo para o lado. Minha direção, além de levar para a padaria (uma desculpa perfeita para aquela hora do dia), também levava para as laterais do prédio, onde a gente costumava colocar os sacos de lixo grandes demais. Fui até lá. Mas não havia mais saco de lixo, nem sinal de guarda-chuva estragado. Uma mancha escura no chão me chamou atenção, mas a chuva já tinha lavado quase tudo. Inclinei-me, os dedos quase tocando o chão. Precisava sentir o cheiro ou até o gosto; descartar o alarme que ainda soava estridente em minha mente. E quando um cheiro metálico invadiu minhas narinas, quase caí sentada.

Um barulho me fez literalmente pular, o coração quase saindo pela boca

— Malditos gatos — murmurei, vendo a pequena figura correr apressada para o outro lado da ruela sem saída.

— Também não gosto deles. Muito intrometidos e chegados a um incesto.

Virei-me devagar, os olhos muito abertos encarando seu Juca enquanto procurava por minha voz. Mas tudo o que encontrei foi o chão e a famigerada luz ao fim do túnel. Ao menos não foi o túnel do meu prédio – cheio de rachaduras, buracos e mofos.

E, ah, dona Ermínia também estava lá. Como, eu realmente não sei. Mas quem sou eu para julgar?

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