As panelas foram transformadas no passado em  ícones pela grandiosidade com que atuaram para libertar seus companheiros de luta. Poderiam ferver, jogar água quente na cara, mas não, lamberiam incestuosamente as colheres de pau e atacariam o primeiro gato que aparecesse na esquina.

Foram criando uma massa amorfa e,  quando vimos, já passavam de mil. Todas pálidas, quase amarelas, mas altivas e resolutas. Não adiantava tocar os tambores, estes calaram simplesmente. não havia mais uma viva alma naquele prédio que um dia fora azul. A derrocada da humanidade agora era real. Poucos conseguiram entrar no túnel do tempo, a última esperança era marte.

Não entendia como puderam criar uma fórmula para dar vida a objeto que até então não tinha nada de abjeto.  Trocadilho indecoroso à parte, éramos todos livres para matarmos o bicho que quiséssemos, era o nosso livre arbítrio.  As panelas perderam a função primordial e começaram uma guerra sem fim. 

Fiquei anestesiado por muito tempo, não conseguia mover os pés, as mãos, a fala. O corpo todo doía. Sabia que aquele prédio guardava muitos segredos. Lembro-me daquele homem esquisito, que não saía nos dias de sol, nos feriados, ficava ali parado em frente à janela, ao teclado e olhando para o computador. Eu sempre achei que ele era um agente secreto, infiltrado no prédio. Às vezes tossia, e eu podia ouvi-lo muito bem. Demorei um bom tempo para perceber que o barulho do meu apartamento podia ser ouvido por ele. Ele não fazia barulho, não imaginava que ele pudesse estar ali; só descobri a minha intimidade quando ele se mudou, e  chegaram duas pessoas para residir ali. Elas recebiam muitos convidados. Eu ouvia tudo. Elas também se mudaram. O apartamento ficou vazio, o prédio ficou isolado no tempo.

Agora eu precisava subir novamente aqueles andares. O elevador não funcionava. O apartamento ficava no último andar. Eu sabia que o homem solitário havia registrado em algum lugar a outra parte do código. Um pedaço eu descobrira dentro do livro Barbarella, que eu colhi junto com outros que ele jogara no corredor para quem quisesse pegar.

Forcei um pouco a porta com a pouca energia que me restara. Foi até fácil a entrada. Estar ali me deixava um pouco nostálgico. Fiquei pensando nos dias eternamente felizes que passei ali. O que eu não sabia era que aquele homem com rosto sereno e respeitoso guardava a fórmula para a destruição da humanidade. Sabia que havia  alguma relação com o espaço da parede logo abaixo da janela. Eu não tinha muito tempo para ficar procurando detalhes em outros cômodos, fui direto para o local onde ele ficava. Ainda havia uma marca da cadeira no assoalho. Toquei a madeira da janela, do jeito que aprendi vendo aqueles filmes antigos que agora só tenho vagas lembranças. Mais abaixo, bem perto do centro, havia um pequeno relevo, fácil demais. Peguei uma pequena ferramenta que levava comigo, dei duas cutucadas, e pronto. Achei um pequeno cilindro, era uma daquelas caixinhas que traziam dentro os rolos de filme para fotografia. Dentro havia parte da resolução da fórmula em formato de haicai.

Eu simplesmente havia perdido para as panelas. Elas agora existiam. Me dava medo só de olhar para um linda bandeja com desenhos rupestres de peixe. A outra parte? O homem do último andar enviou para marte, quase rindo da minha pequena existência.

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