ilustração montagem do autor

 

Ela morava no último andar, tinha o cabelo verde e disse que era marciana. Gostei exatamente desta parte, seu humor. Marciana! Você não acredita? Insistiu ela.

Hoje em dia é só entrar em qualquer farmácia ou loja de cosméticos e comprar a cor que quisermos, na contemporânea alquimia capilar encontramos em meio aos inúmeros tons de marrons, pretos e loiros naturais ou platinados temos os rosas pinks, azuis e verdes, laranjas e roxos. O dela, mais próximo do místico turquesa, um verde levemente azulado.

Conversa para boi dormir, ela não tinha que provar nada, entretanto no meio de nossas conversas, ela inseria naturalmente informações sobre o seu planeta. Dizia que amava os nossos pores do sol. A explicação é simples, devido a maior distância do astro rei, o sol em Marte aparentava ser bem menor que o nosso.

Apesar de Marte possuir duas luas, Fobos e Deimon, a nossa Lua também a encantava. Fobos tem seus dias contados, está tão perto do planeta que será por ele sugado e Deimon é um dos menores satélites naturais do sistema solar. Estranhei ela não saber disso, mas me dei conta de que pouco sei sobre a Terra e a nossa lua.

No primeiro dia em que dormimos juntos, nem notei que seus pelos pubianos também eram verdes. Percebi apenas quando fui levar uma toalha para ela sair do banho. Fingi que era a coisa mais normal do mundo, afinal a cor dos pelos pubianos não definem ninguém.

Seus olhos também eram verdes, de um tom intenso e profundo. Sua cor preferida era roxo puxado a beringela, a mesma cor do seu batom e de suas unhas. Devido ao corte e a coloração global, parecia apenas uma garota antenada que gostava de seguir as últimas tendências da moda.

Reparei que ela tinha dois relógios na sala, um roxo e um verde, o roxo era analógico e marcava a hora com uns dois minutos de atraso e o verde digital tinha uma diferença significativa de horas.  Imaginei que seria o horário de algum país do oriente. Deduzi isso pois ela tinha olhos amendoados levemente puxados.

Como sempre estava atrapalhada com os horários, tenho a impressão de que estes relógios tinham relação com esse fato. Por curiosidade, quando ela chegou e jogou a bolsa na cama, eu perguntei. Pensei que você soubesse, esse é o horário de Marte. Quase deu tempo de sorrir antes dela vir me beijar.

Pesquisei e vi que o dia em Marte tem 40 minutos, ou melhor, 39 minutos e 35 segundos a mais que o nosso de 24 horas e que a NASA utilizava um relógio parecido para controle das sondas que pousaram em Marte. Inclusive um engenheiro que acompanha o jipe Curiosity nas suas andanças pelo solo do planeta vermelho, colocou toda a família num jet-leg permanente ao adotar o dia marciano, mas vivendo ainda no nosso planeta.

Ela é vegana. Com orgulho me levou para ver um projeto seu, conseguiu permissão para instalar uma horta orgânica comunitária no amplo terraço do prédio e um elogio comum é dizerem, Ana Márcia você é do outro mundo, ela sorri e diz, é verdade!

Descobri no meio das rúculas e rabanetes uma espécie diferenciada de berinjela não comestível que ela cultivava para extrair a cor para confeccionar seus esmaltes e batons. Fora a ladainha para que eu não coma mais carne, gosto muito de observar ela comer seus pratos coloridos.

Aboli a qualquer tipo de fritura após o seu alerta. Poderia colocar em perigo o pequeno aparelho que filtra a água. Não se trata de um filtro de ionização ou de carvão ativado, nem qualquer outra tecnologia que eu conheça. Impossível descrever a pureza desta água, só mesmo provando.

É um pequeno icosaedro transparente com uma membrana no meio, de um lado entra a água do outro, sai. Tão simples que é difícil de acreditar. Ela diz que não necessita de manutenção, mas pode ser atacado pelo óleo de fritura se este alcançar o seu ponto de fumaça.

Nova pesquisa, encontrei informações sobre o tal ponto de fumaça. Quando o óleo está muito aquecido, a glicerina, que faz parte da composição, quebra e forma a acroleína cujas partículas na fumaça atacam os olhos e a garganta, mas claro, não achei nenhum filtro daquele tipo em nenhum lugar.

Relógio com horário de Marte, filtro de alta tecnologia e o nome dela invertido que não deixa de ser irônico e divertido: Márcia Ana.

O que falar do pigmento orgânico berinjela? Este não serve apenas como corante de esmalte e batom, mas macerado com algumas gotas de azeite é o ingrediente principal das cápsulas que ela ingere diariamente para manter a sua linda pele num tom suave dessa mesma cor, mas os cabelos não eram tingidos, constatei por tabela quando ela se depilou total, os pelos despontavam naturalmente verdes.

Atrás dessa escaramuça marciana, ela esconde a verdade quanto a sua origem gerada por um sentimento misto de preconceito com indignação. Porém nada justifica renegar seu planeta de origem! Quem ela pensa que engana? Ana Márcia, Márcia Ana, meu amor, o que importa se o seu cabelo é verde e você berinjela? Ver-te que te quero verde, aqui, acolá ou que seja em Marte!

Descobri muito mais que você imagina, venha cá, deixe-me contar as novidades. Amanhã mesmo partirei para o seu planeta anão, Plutão. Vou representar a empresa que fabrica os filtros icosaédricos, o que acha? Ela desejou-me sucesso nessa minha empreitada, depois me deu um abraço demorado e um beijo de pré-despedida sussurrando lentamente em meu ouvido essas palavras, planeta anão é o…

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