Vales, colinas e hortas sempre me chamaram muito a atenção, ainda mais quando vejo plantações com muitas tonalidades de verde e alinhadas harmoniosamente. Foi isso que interrompeu a minha viagem naquele ano, ou melhor, atrasou a minha vida como disse meu pai e ate hoje discordo.

Estava na estrada com destino ao sul da Bahia, mais precisamente no Prado, onde iria trabalhar como agrônomo através de uma cooperativa estadual. São Paulo havia ficado para trás, junto com uma noiva controladora e chata que felizmente me entregou de mãos beijadas boas razões para abandoná-la. Bem, essa é a minha versão, pois a dela diferia bastante e era cheia de dramas e lágrimas financiáveis por cartões de crédito. Enfim, lá ela…

Num determinado momento, já saindo do Espírito Santo, avistei uma área belíssima e do jeito que me deixa apaixonado como citei antes. Só que havia algo a mais ali, imantando a minha alma e curiosidade: couves escuras e alfaces claras compondo um desenho. Incomum, desnecessário e posso dizer grotesco e mesmo assim me encantou. Era uma mandala (dessas que a gente encontra numa ferinha de bagulhada, repleta de velhas e babás) com uns cinco hectares e absurdamente nivelada. Fui diminuindo até parar na porteira da tal fazendinha. Saltei, registrei a imagem em minha câmera e logo vi um capiau genuíno, na roupa e na postura, de pé, com a sua enxada ao lado, apoiada sob os braços fortes. Ele estava de costas e o chamei, em vão. Sem virar-se, gritou de onde estava:

− “Que qui ocê qué?” – em tom pouco amigável.

Confesso que fiquei surpreso e irritado, mas resolvi dar um desconto agreste ao indivíduo e continuei em tom formal:

− O senhor poderia vir até aqui para conversarmos?

− Carece não moço, fala daí que eu “ovo” muito bem.

Pensei em corrigi-lo, mas só pioraria a situação que aos poucos me irritava mais e pelo visto a ele também.

− Tá, vamos fazer do seu jeito então.

− Meu jeito? – gritou mais alto o roceiro – “Tamu fazendu du seu”, acha não?

Juro que respirei fundo, contei ate vinte (dez não resolveria) e redirecionei a minha fala, no sentido da bajulação.

− Foi o senhor que teve a ideia de fazer esse desenho na plantação? – evitei questionar o que seria o meu jeito.

− Num vai “preguntar”?

− Sobre o que? – eu sabia, mas preferi me fazer de idiota.

− “Tá si fazendu di troxa ou disfazendo deu?”

− Ok. Porque você disse que estamos fazendo do meu jeito? Satisfeito?

− A “pregunta num” é essa.

Soltei um “puta que pariu” que assustou até um casal de sabiás que estava pousado na cerca ao lado e partiu céu acima. Ele riu, mas riu muito, balançando todo seu corpo até deixar a enxada ir ao chão e em seguida sentar-se virando em minha direção e disse:

− Agora “qui u moçu deceu du” cavalo, “nóis pode conversar mió” – e continuou rindo, debochado, catando um mato do chão e levando até a boca larga com incríveis dentes brancos incompatíveis com o estado da roupa e linguajar.

Virei-me na intenção clara de ir embora, mas antes de dar o segundo passo ouvi outra voz, feminina, suave e com concordância e plurais que agraciaram meus ouvidos.

− Pai, quantas vezes já lhe disse para não chatear as pessoas que vem nos visitar por causa dessa sua obra de arte aí? – continuou enquanto se aproximava – O senhor me desculpe, mas ele é assim e nada o fará mudar. Diverte-se com a perda da paciência dos que tentam conversar com ele. Por essas e por outras que a minha mãe o largou.

− Isto não é verdade, filha ingrata, ela saiu por outro motivo e você sabe – retrucou ele em português correto e em tom bem mais suave.

− Ahãm – “grunhiu” ela, olhando para ele com uma das sobrancelhas bem alta e os braços cruzados.

Nesse ponto eu já não entendia mais nada. Passei de atônito para novamente aborrecido por perceber que todo o tempo eu estava no meio de uma peça.

− O senhor não tem mais o que fazer não?! – o interroguei olhando bem nos olhos.

Ele riu, multiplicando minha raiva e respondeu:

− Quem não deve ter o que fazer é o senhor para interromper a viagem e vir conversar com um roceiro qualquer. – um sorriso de deboche ganhou espaço seguido de uma piscadela de olho.

− Qual o seu nome, senhor? – perguntou a filha cuja beleza evitou um desastre maior de minha parte.

− Fernando – respondi enfeitiçado por ela.

            Uma gargalhada estrondosa partiu dele, que já caminhava na direção do portão para abri-lo. Deu-me a mão direita em sinal de amizade e a apertei com toda a minha força para mostrar minha firmeza. Ledo engano. Ele devolveu a força, a superou e tive de conter as lágrimas para manter a postura. Convidaram-me para um café com bolo e me contaram tudo sobre o lugar e como começaram.

            Assim nos conhecemos, assim a historia caminhou naquele belo vale e assim, anos depois, me vi com duas filhas lindas, uma mulher estonteante e um sogro abusado, porém extremamente amigo, que me acolheu e ate hoje ri de chorar lembrando daquele dia.

Aquele meu emprego na cidade do Prado? Lá ele…rs

 

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