Todos os anos, a primavera costurava delicadas rendas lilases para os campos. Quando pequena, Fleur imaginava que uma bela mulher as tecia com suas mãos, as lavandas que cobriam os campos.

Agora já sabia que não era assim que o campo se cobria de beleza e perfume, mas não deixava de se sentir arrebatada pela visão dos campos floridos. Da sacada de casa, observa, lá embaixo, no vale, a plantação.

Naquele dia, sentiu-se subitamente cansada de admirá-las de longe. Era hora de sentir nas mãos a maciez daquelas flores, impregnar-se do perfume puro que elas exalavam.

Por isso, saiu na ponta dos pés enquanto os pais bebiam o chá. Os criados, ocupados com suas tarefas, não perceberam-na deixar a casa e seguir montanha abaixo pela estradinha.

A tarde era quente e ela o sentia em sua pele. Porém, ao aproximar-se da lavoura, sentiu o cansaço ser levado embora. Embrenhou-se, clandestina, no terreno, e começou a percorrer os corredores regulares entre as fileiras de flores.

Era um paraíso estar ali e a brisa intensa, vindo com o crepúsculo, fazia parecer que estava no cenário de algum conto de magia. Perdida em seu êxtase, mal viu um vulto que chegava até ela, mas ele a viu.

-Hei, você! – Ele correu na sua direção.

Quando aproximou-se, ela lhe estudou as faces. Era bonito, mesmo bravo. Em alguns instantes, porém, a expressão dele se suavizou.

-É gente dos Blanche… O que você faz aqui? – Intimidara-se.

-Fugi para florir aqui um pouco. – Ela respondeu.

-O quê? – Com o cenho franzido, o jovem retrucou.

-Sempre vejo as flores da janela. Queria vê-las de perto, senti-las um pouco. Só um pouco. Me desculpe por invadir. – Articulou, sentindo-se sem jeito. Não pensara antes como a ideia fora insensata.

-Tudo bem… – Ele disse, a voz era morna suave, como estava aquele final de tarde. – Mas está tarde e se está sozinha, a acompanho até a sua propriedade.

Fleur assentiu e começaram a caminhar. Os minutos que levaram para transpor o trajeto foram dissolvendo a sensação de tolice que apertara o coração da moça. O rapaz também pareceu menos desconcertado. Chamava-se Thierry e era o filho mais velho do dono daquelas terras.

Quando chegaram ao final do trajeto, Thierry se inclinou em direção a um arbusto de lavandas e colheu um ramo, estendendo-o para ela.

-Para você ter uma flor por perto. – Ele disse, enquanto suas mãos se encontravam.

Sorrisos. Seguiram até o portão da casa dela e em frente ao portal pararam. Fleur ficou na ponta dos pés para lhe dar um beijo na bochecha. Depois de fazer isso, ela correu pelo caminho de cascalho em direção à casa, sem olhar para trás. Então não viu o rosto vermelho de Thierry, nem a mão dele encontrando o ponto onde os lábios dela tinham encostado em sua pele.

Só sentiu o sabor salgado da pele dele nos lábios e o perfume do ramo de lavanda que tinha nas mãos. Ele cheirava a flores e ela estava apaixonada.

Naquela noite, houve reprimenda pela sua fuga da tarde, mas ela pouco se importou. Anos depois, a lembrança daquela tarde ainda era como um sonho.

Assim, sentada na poltrona da sala de estar, a vovó Fleur contava como tinha encontrado o vô Thierry pela primeira vez. Como tinham conseguido vencer os obstáculos que surgiram ao seu amor, como tinham se casado e tido os seus filhos, tudo isso era outra história, para uma outra tarde rendada de primavera.

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