Naquele dia resolvi segui-lo.

Meu irmão mais velho tem hábitos esquisitos e sempre segue sozinho pela extensa lavoura da nossa família, nos primeiros raios do sol. Sai calado e calado volta, depois solta a língua no café da tarde, entre as mulheres na cozinha principal. Eu gosto de observá-lo nesses momentos raros de alegria, mesmo assim, comedida. É meio soturno, dado ao trabalho pesado e frases entre os dentes para os funcionários, o que os obriga a fazer silêncio quando ele se aproxima do alojamento para dar algumas ordens.

Era uma manhã quente e úmida e eu estava curioso para saber o que ele tanto fazia pelas nossas terras roxas e férteis. Fiquei a uma distância segura, afinal ele é imprevisível e astuto nas caçadas que presencio. Ouve sons aparentemente inaudíveis e impressiona qualquer um.

Os minutos se arrastavam e devo admitir que estava chato demais aquela perseguição sem nenhuma descoberta minimamente interessante. Eu sou louco por suspenses. Não confundam com aqueles com sustos e batimentos próximos de um enfarte. Esses eu abomino com todas as minhas forças e por isso sou visto como um, digamos, medroso crônico. Não vou dizer como me apelidam, apenas direi o meu nome, Remy e do meu irmão, Thierry, o estranho. Na verdade eu o idolatro. Coisas entre irmão caçula e primogênito. Amo mesmo.

Ele parou subitamente e parecia olhar ao longe, intrigado e irrequieto. Eu virei uma estátua de olhos arregalados. Thierry correu, após gritar algo que não entendi. Corri junto, mantendo distancia boa. Era a menina dos Blanches, a minha favorita, se é que me entendem. É um pouco mais velha, mais o amor só enxerga o alvo: Fleur.

O que ela queria por ali? Meu coração disparou ao imaginar que eles estivessem se encontrando todos os dias, mas a reação dele e seus olhares desfizeram o meu temor. Caramba, que susto.  Sentei aliviado e aproveitei para, de quatro, me aproximar um pouco mais. Não conseguia escutar nada, mas não tirei os olhos dela para nada. Quase nada, na verdade, só para um maldito formigueiro. Os corredores de flores facilitavam a visualização, mas também poderiam me entregar facilmente.

Aos poucos a tensão entre eles diminuiu, enquanto a minha aumentava e esperei que ele se despedisse e continuasse sua rotina, mas não, seguiu com ela na direção da propriedade dos pais. Fui junto, atônito, descrente do que imaginava. Pararam e voltei a sentir o estômago embrulhar de nervoso, quando ele ofereceu uma flor e ela sorriu. Nem queria olhar mais. Comecei a suar mais ainda, com vontade de vomitar. Seguiram até o portão da casa dela e Fleur o beijou…

Só me lembro de chegar à casa principal, lavado de suor e lágrimas e batidas muito aceleradas num coração que desconhecia poder se mover em pedaços. Demorei a encontrar a minha calma. Estava entre minha razão e minha loucura, encolhida por detrás da raiva e meio distante da ponderação. Respirei fundo muitas vezes, até recobrá-la. Chorei mais um pouco, sentado junto à mangueira, enxuguei as lágrimas e revi na cabeça aquela cena monstruosa, para mim. Ele foi retornando e enterrei o ocorrido de forma bem superficial, deixando claro que algo me incomodava, mas ele jamais perceberia. Estava feliz como nunca o havia visto, falante e com brilho nos olhos, o mesmo que deveria estar nos meus.

Passei a ser eu, o soturno, de poucas palavras, a partir daquele dia e não mais ele. Sei, no fundo dos meus desejos infantis, que passará essa tristeza, afinal eu o amo mais do que tudo e vê-lo feliz diminui a minha dor e compensa meu silêncio, minha paixonite e minha discrição. Respiro melhor quando vou além daquilo que espreito…

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