Há muito tempo atrás, num inverno desses tremendos, eu morava num lugar do interior que se resumia em duas ruas. A casa da rua Solferino havia três andares, a mais alta do vilarejo. Fazia parte de uma estrutura agrícola italiana conhecida como cascina, no norte da Itália. Todas as manhãs eu me levantava bem cedinho para trabalhar e estudar. Quando saía de casa, era envolvido por uma neblina muito fina que grudava nas minhas lentes e se dissipava entre casacos de cores escuras e luvas de passageiros prontos para embarcar na estação de trem central. A neblina infiltrava na paisagem como um pincel que embranquece suas cores. Passavam poucos trens e quando atrasavam, acontecia o maior rebuliço na estação. Era gente gritando “bastardos”, “perco o trabalho”, “maldita Ferrovie dello Stato”. A melhor coisa nessa ocasião era evitar travar qualquer conversação ocasional com um punhado de conhecidos na estação.

Durante essa viagem de trem de quase duas horas que fazia a diário, sempre encontrava objetos e pessoas ao meu redor para poder amar e ser amado. Algumas pessoas, de maneira clandestina, outras menos, como Fleur, a garota que encontrava no trem. Assim eu a havia apelidado, logo após vê-la entrar no vagão com seu casaco invernal preto com flores vermelhas e amarelas, contrastando com a neve que caía lá fora infernal. Sempre aparecia com umas botas divertidas e sem olheiras, apesar de levantar como todos naquela estação, antes das seis da manhã.

Naquele tempo era um jovem universitário que frequentava a universidade de maneira itinerante. Usava sempre o mesmo sobretudo preto de lã e um cachecol azul marinho que envolvia no pescoço e uma calça jeans de um número maior. Não tinha tantas lembranças para matar as horas olhando através da janelinha do trem. De tanto em tanto, levava um caderno para desenhar discretamente as pessoas. Traçava muitas linhas de rostos, pernas e algum bizarro chapéu que voltava de moda com certo embaraço. Pela manhã, Fleur e eu viajávamos diariamente juntos e sentávamos quase sempre no vagão do meio. Suas conversas acabavam me preenchendo com aquele eterno sorriso matutino, suas botas e seu casaco florido com pelos de gatos. Tinha sempre uma história para contar ou um livro para recomendar. O papo era bastante eclético, saltando entre as provas da faculdade, os passageiros do trem que dormiam como pedras entre seis e oito da manhã até escutar a frase “Estação Central” seguido de “última parada” com ordem de expulsão de “por favor, desçam do trem”. Era assim que assistíamos ao espetáculo das poltronas verdes: todos eles acordavam com aquela água fria de mensagens e, nós curiosos, assistíamos como eles escoavam depressa nos corredores da estação. Às vezes aparecia o cobrador dizendo a Fleur “Bilhete, por favor”. Ela era tão desorganizada com seus papéis, que mesmo tendo comprado e guardado a passagem do trem, nunca sabia onde enfiava a tal da passagem; “Mocinha”, dizia o cobrador do trem, muito bem aprumado com seu uniforme impecável, “Vai levar multa, mocinha”. Ela remexia na bolsa, repassava o montinho de papéis em sua palma entre notas de café, papéis de bala de menta, cartões de visita, e quando o cobrador já estava pronto a assinar sua multinha, lembrava de enfiar a mão no bolso direito do casaco preto com pelos e, finalmente, “o bilhete, meu senhor”, dizia com um sorriso que fechava aquela conversa augurando um “Muito bom dia”. As mãos de Fleur ficavam suadas e depois de anos ainda sonhava estar num trem rumo à uma cidade qualquer e ficar remexendo na bolsa, tateando os furos do foro do casaco para encontrar a tal da passagem enquanto seu amigo cobrador parava ao seu lado dizendo “Vai levar multa, mocinha”, sempre com seu uniforme verde oliva, impecavelmente bem vestido.

Durante o percurso do trem, costumávamos jogar conversa fora com os passageiros habituais da comitiva de viajantes. Havia uma mulher que dizia ter trabalhado como maquiadora profissional na capital italiana com os maiores artistas. Por mais que a moça tivesse mudado de nome, Fleur continuava a chamá-la de Paulo. A moça falava de uma maneira refinada, pausada e baixinha, sussurrando enquanto eu tentava traçá-la no meu caderno as feições de uma nova mulher.

Havia a senhora Verdi que se dizia parente do próprio compositor italiano. Quando chegava ao trem bem composta com suas vestes longas e oitocentistas com abundante renda preta, dizíamos que havia chegado a “Va pensiero”. Ela de “pensiero” tinha muitos e compartilhava com a gente seu ponto de vista da modernidade e novas tendência da moda, na qual o retrô triunfaria naquela estação do ano. Tornou-se logo viúva e apesar das constantes ofertas de casamento, preferiu ficar com casa todinha para ela e seus gatos que recolhia da rua.

Outro passageiro era o senhor Bassini quem lia os clássicos italianos durante a viagem e dizia que as conversas dos passageiros eram para gente sem uma “vida interior”. Não gostava de falar com desconhecidos, preferindo perder-se no meio do caminho, imerso na selva escura de Dante. E entre Inferno, Purgatório e Paraíso, ignorava nossa presença. Ficava sempre num cantinho da janela com alguns outros do círculo de letras do trem.

Como em todos os invernos, gostava de escolher uma cobaia para minhas paixonites. O leque de opções eram amplio, já que o trem carregava as universitárias da província que não tinham condições ou vontade de morar longe de casa. Era bastante tímido e, às vezes, fitava discretamente como quem está absorto em seus pensamentos. Uma vez que outra, aproveitava para ficar em pé parado na frente de alguma garota passageira, tentando fazer algum tipo de contato, sempre com um ar de abstração, transmitindo, dessa maneira, uma vida interior plena, sem motivo aparente para observar nenhum traço de beleza na minha juventude.

Fleur ria do meu fingimento ataráxico. Ela tinha um namorado misterioso que morava no estrangeiro e eu desconfiava que mantinha aquela relação para poder receber cartas pelos correios. Encontravam-se somente no verão, ou em algum feriado. Para visitá-lo, costumava pedir caronas, conhecendo muitas pessoas e pisando em diferentes lugares até chegar ao seu amado.

Quando eu passava numa prova difícil na universidade, Fleur encontrava-me no trem de volta para casa e passávamos aquelas horas fazendo uma lista de desejos, aparentemente de fácil realização e a curto prazo. Era uma desculpa para testar medos ou habilidades culinárias: aprender a fazer massa em casa, declarar-se para algum desconhecido, tocar uma canção de três acordes. Mas, o que eu mais gostava era a de escolher uma semana inteira e aplicar o jogo do “imprescindível ou extravagante”. Esta fantasia consistia em escolher uma semana na qual um de nós aplicava um método de economia verbal; a regra era dizer o mínimo indispensável, alternando com outra semana, na qual tínhamos que fazer frases rimadas o todo tempo: Não desarranja essa laranja e esbanja essa franja/no meio da festança crianças e dança não descansa a intemperança. Outro elemento da lista era narrar ao outro alegrias e desgraças através de notícias de algum remoto país.

Quando Fleur não conversava, lia alguns livros de mulheres na época medieval, e psicologia para compreender sua vida interior e cultivá-la, citando o senhor Bassini. Queria superar a fúria de sua família em casa e o abandono de seu pai, após seu nascimento. Queria uma vida sem remorsos, e vivia pronta para enfrentar qualquer abismo. Ela se jogava com flores, pelos de gatos e seu sorriso.

Tenho as mais belas lembranças de Fleur. Foi ela uma das primeiras pessoas a desenhar naquela viagem cotidiana. Seu rosto parecia uma tempestade de matizes. Era ela que borrifava cores naquela paisagem ofuscada pela neblina em meio a tantas histórias tristes dos passageiros da estação ferroviária. Ela sustentava a sua história com leveza e uma certa extravagância de ser.

Passaram-se alguns anos e fui perdendo o contato com Fleur e outros passageiros. Minha cidade era outra e já não pegava mais o trem; mas, nos lugares que frequentava, bastava uma palavra, um gesto ou um sorriso, para evocar sua presença, para me reencontrar nesses momentos com Fleur quem me acompanhava com seu casaco florido, pelos de gato, seu eterno sorriso, dando-me um sentido de continuidade da vida.

 Imagem retirada do site “https://diariodeunamujerlibre.wordpress.com”.

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