ilustração montagem do autor

 

− Não adianta não, seu moço! O pai do menino falava e dava de ombros, mas Morgado insistia e passava as mãos na frente dos olhos fixos dele perguntando novamente: − O Sr. tem certeza de que o moleque não está cego. − Não está, já falei! Afirmava o pai.

− Ficou assim desde que ele voltou do meio do mato, há muito tempo atrás. Disse o pai do menino tentando explicar a situação. − Será que ele não bateu o cocuruto no trilho do trem? Indagou Morgado. − Olha seu moço, o Sr. insiste nessa história de trem, de trilho de trem, aqui neste fim de mundo não tem isso não, já falei.

− Quando entrei na mata e encontrei o seu menino pulando os batentes, vi que era uma felicidade só, primeiro passei correndo por ele, mas olhei para trás e vi algo que nunca tinha visto, falou Morgado. – Sei do que você fala. Comentou o pai do menino.

Depois de muita conversa, Morgado além das desculpas por incomodar, pediu: – Se o Sr. puder me dar um copo de água, estou morrendo de sede. E sentou ao lado do menino, que na verdade não era mais menino.

Passaram-se vinte anos. Morgado pensava, agora que tinha sido solto, tinha que achar os tais trilhos para encontrar a sacola que escondeu com as pedras roubadas. Estava lá fazia uma hora e a conversa não saía do mesmo lugar. O menino na cadeira de rodas não era paralítico nem nada. Não enxergava, mas não era cego, não falava e não ouvia, nem era surdo e nem mudo, afirmava o pai.

Para chegar até o menino, Morgado resolveu que ia perguntar sobre ele, fazendo a descrição de como ele era naquele tempo. Num lugar tão parado, as recordações de vinte anos atrás eram como se tivessem acontecido há dois anos atrás.

Perguntou primeiro para uma senhora se conhecia um menino meio magro que gostava de andar pelos trilhos do trem, com os cabelos pretos esvoaçantes. − Olha seu moço, nunca teve trilho de trem nessas bandas, mas eu conheço um menino que gostaria muito que tivesse. E indicou o caminho a Morgado.

Morgado confiante, sentiu-se com sorte, depois de todo esse tempo, a primeira pessoa que ele encontrou já deu o paradeiro do menino, tão confiante que nem ligou para o detalhe que a senhora contou, de que não havia nenhuma linha de trem pela região.

No caminho pensou em confirmar o caminho com um sujeito que olhava assim meio de lado. Morgado ao tentar olhar olho no olho, que era do seu feitio, não conseguiu. O sujeito ia dando volta para continuar olhando de lado. Depois de duas ou três voltas Morgado deu-se por vencido e quando abriu a boca para confirmar o caminho, o sujeito adiantando-se declarou espontaneamente.

− Seu moço, o Sr. suba e depois desça, suba e depois desça, suba e depois desça, suba e depois desça. Entendeu? Perguntou o sujeito. − Espero que não esteja brincando comigo! Morgado retrucou um pouco exasperado. − Se o Sr. não entendeu eu posso explicar de novo, falou o sujeito dando agora a volta de ré a medida que Morgado avançava pelo outro lado.

− Ô homem de Deus, deixe ele em paz! Disse um velhinho sentado num banquinho na frente do que parecia uma vendinha, ele é assim mesmo, mas explicou direitinho como o Sr. chega até lá! − Mas ele nem esperou eu perguntar para onde eu queria ir e já foi falando num sobe e desce sem fim! Falou firme Morgado, mas num tom de respeito ao velhinho.

− Pois é! Respondeu o velhinho, ele é assim mesmo, sabe mais do que as pessoas querem do que o seu próprio querer, uns acham que é um dom outros acham que é um castigo, sabe se lá. E tem mais, pelo caminho subido e descido quatro vezes o Sr. vai dar na casa do Seu Afrânio que vive com o seu filho, pois a mãe, há muito Deus a tenha. Presumo que seja esse o seu querer.

Obrigado! Obrigado! Morgado falou gesticulando em mesuras de respeito e desculpas. Obrigado! Obrigado! Repetindo o agradecimento e saindo meio de lado. O sujeito não fez por menos, agradeceu as mesuras e foi saindo olhando de lado e fazendo com a mão, sobe, desce, sobe…

Morgado subiu. Aí desceu, e repetiu isso mais três vezes conforme a ladainha. Só tinha uma casa na baixada. Bateu palmas umas duas vezes depois lançou mão do ó de casa!

Seu Afrânio apareceu e Morgado foi logo perguntando: − Desculpe incomodar, vou direto ao assunto, o Sr. é pai de um menino que andava lá para as bandas da mata pelos trilhos do trem?

− Também serei direto e reto, mas vou adiantando que não tem trilho de trem nenhum por esses lados e do lado de lá de onde você diz ter vindo, porém como você parece saber da história, sou sim o pai dele!

− Grato pela franqueza, mas de que história exatamente o Sr. fala? Morgado ressabiado perguntou. Afrânio, o pai do menino, não respondeu de pronto, fez um gesto convidando Morgado a entrar. − O Sr. primeiro. Disse Afrânio indicando o caminho, visto que Morgado hesitou. Novamente o mesmo gesto e Morgado ao entrar no quarto viu um vulto de lado contra a luz da janela. Os cabelos esvoaçados eram os mesmos, notou que o menino estava numa velha e surrada cadeira de rodas.

− Oi lembra de mim? Do trilho do trem! Falou Morgado acenando. −  O moço das três maçãs, lembra? − Desculpe seu moço! Interrompeu Seu Afrânio. − Ele não está escutando nada do que o Sr. diz, mas o Sr. disse três maçãs? O Sr. deu três maçãs para o meu menino? E o Sr. via os trilhos do trem também? Lançou o pai do menino três perguntas seguidas. − Sim, dei a ele três maçãs no dia em que encontrei com ele nos trilhos do trem. Respondeu Morgado.

O homem olhou para cima, agradeceu e exclamou.− Santo homem! O Sr. nem imagina que aquela foi a nossa única refeição naquele dia. Porém meu menino alguns dias depois, ficou assim.  − Assim como? Perguntou Morgado passando a mão na frente dos olhos do menino.

Enquanto Morgado rememorava a conversa com Seu Afrânio, este enfim chegou com o copo de água se explicando: − Desculpe a demora, é que tive que puxar água do poço, eu nunca lembro de revisar as moringas, deve ser a idade. − Demorou nada! Obrigado Seu Afrânio. Morgado agradeceu e logo emborcou o copo. – Não tem de quê! É Morgado, não é?

− É sim Seu Afrânio, sabe eu vim de longe, sinto pelo seu menino, mas esperava que ele pudesse me guiar até os trilhos do trem. Confessou Morgado, continuando a falar: − Na verdade, eu tentei achar a picada, qualquer outra entrada que me levasse aos trilhos, porém não consegui nada mais que arranhões, picadas de inseto e até esfarrapar a minha roupa.

Enquanto mostrava os pequenos rasgos na camiseta, Morgado desandava a falar: − Eu também não me lembro direito, na época me colocaram num barco rio acima e fui parar ao lado da mata.

E continuou a história: − Naquele dia me embrenhei na mata e topei com os trilhos de trem e segui adiante, no meio do caminho encontrei com o seu filho, não me conformo de que ele tem o mesmo rosto, a mesma expressão, os mesmos cabelos, só que está mais alto e mais velho, mas com cara de menino. E eu que tenho apenas uns seis anos a mais que ele, já pareço um senhor de meia idade.

Neste momento Morgado ficou em silêncio, após alguns minutos voltou a falar: − São vinte anos seu Afrânio, tudo por causa de uma pesada bolsa de couro toda costurada. Naquele tempo, eu nem sabia o que tinha dentro, tinha apenas de achar um lugar seguro para esconder a bolsa e depois guiar o meu padrasto até o local.

Sob o olhar atento de Seu Afrânio, Morgado fala inconformado: − O problema é que o rio não dava mais ali do lado da mata, saía sempre em outro lugar, cada vez em outra cidade.

– É, pois é! Disse o Seu Afrânio: − Um rio nunca é o mesmo, esse então, vem quando quer, mas não tem mistério não, pelo visto você o pegou agora numa cheia daquelas, aí ele chegou novamente até aqui. Caso contrário ele dá duas ou três cidades mais abaixo e olhe lá!

Morgado de olhos arregalados escutava Seu Afrânio: − Agora os trilhos de trem que você fala é outra coisa, aliás de uma outra coisa, essa sim, desconhecida. Coisa de lenda, coisa de outro mundo que não se fala muito por aqui e o meu menino não sabendo de nada, a ingenuidade em pessoa, entrou lá. Fazer o quê? Era a felicidade dele, o trem Augusto.

− O trem Augusto? Morgado perguntou espantado. Seu Afrânio respondeu:  – Sim, o meu menino chama-se Augusto e pensava que era um trem, um trem de passageiros e de carga, levava os insetos e os bichos para dentro e para fora da mata, trazia gravetos e folhas diversas para a mãe que fazia chá. Não raro eles vinham parar aqui em casa e no dia seguinte voltavam todos com ele para mata.

Seu Afrânio continuou: − Naquele dia foi a sua última carga, eu estava desempregado, a mãe dele doente e ele nos trouxe as três maçãs. Apitava de contente. Espera aí Morgado, você via também os trilhos, não via? Ou só entrou na onda dele? Perguntou Seu Afrânio. − Sim, como estou vendo vocês hoje aqui, com esses dois olhos, os mesmos olhos de vinte anos atrás, talvez um pouco mais cansados, respondeu Morgado.

− E teve morte por causa da tal bolsa? Teve, não é? Perguntou Seu Afrânio assim de chofre. Morgado ficou calado. Seu Afrânio sentou na cama e disse que já desconfiava disso, as mortes mataram os trilhos e o desaparecimento deles matou o meu Augusto por dentro. Rompendo o silêncio Morgado sem olhar nos olhos do Seu Afrânio perguntou: − Como o Sr. sabe das mortes? − Está na sua cara meu filho, se assim posso chamar você.

− Pode sim Seu Afrânio! Falou Morgado quase chorando: − O chefe do bando acho que matou primeiro meu padrasto, não lembro ao certo, mas depois foi a minha mãe, cada vez que eu tentava pegar o rio e não dava onde deu naquele dia, eu sabia que iria morrer alguém. Até que na quinta tentativa fomos presos. Eu saí antes, mas fui jurado de morte se não achar a bolsa e entregar ao chefe.

Morgado começou a chorar. Seu Afrânio o incentivou dizendo: − Chore meu filho, chore, essas mortes não são suas, essas não, mas quem sabe a verdade de tantas mortes que houveram no mundo até agora? O silêncio do choro doído foi rompido por um gesto inusitado de Augusto.

Pousou uma joaninha no cabelo de Augusto, ele levantou a mão e ela voou desajeitada até o seu dedo. Da janela apareceu um sagui da terra que de um salto já estava no ombro direito dele, borboletas, mariposas, besouros, sanhaços azuis e papa-laranjas, voavam ao redor e corriolas violetas e sulferinas desabrochavam de seus bolsos ancorando suas trepadeiras na sua blusa por sobre o ombro já descendo as costas.

Augusto, agora em pé, abriu as mãos, a joaninha voou e as pedras preciosas caiam lentamente no chão, mas antes brilhavam no ar, refletindo a luz da janela que entrava como feixes filtrados pela árvore ao lado dela. Morgado tentou pegar algumas das pedras, mas percebeu que ao caírem no chão, cessava o brilho e elas se desmanchavam em sangue.

Augusto saiu da casa, Morgado o seguiu até a macieira ao lado da casa, plantada ao acaso por causa das sementes jogadas pela janela naquele dia fatal. Augusto rodeado e cheio dos mais variados insetos pelo corpo todo, colheu três maçãs. Entregou uma a uma a Morgado e pediu que o seguisse.

Morgado hesitava em seguir Augusto, exatamente como fez com Seu Afrânio antes de entrar na casa. Então olhou ao seu redor e procurou o pai de Augusto. Este estava do outro lado puxando mais água do poço, balançou a cabeça sorrindo em sinal de aprovação sem largar as mãos da corda.

Morgado sentiu-se novamente confiante e seguiu o trem Augusto que estava lotado e em pleno funcionamento. Morgado ia trás, tentando desviar do sangue que ia pontuando o caminho quando caiam as pedras brilhantes. Quando chegaram a mata, Augusto entrou atrás de uma árvore que escondia um pequeno declive. Descendo um pequeno barranco estavam lá, os trilhos do trem. Pareciam ser exatamente os mesmos da outra vez, parecia ser o mesmo dia.

Morgado reparou que nos trilhos as pedras pararam de cair. Na sua frente ia o trem Augusto a todo vapor, eram muitas as estações, porém muito mais numerosos eram os passageiros, ruidosos passageiros, subiam e desciam de Augusto, uns pulavam, outros voavam, alguns caiam, embarcavam novamente e o trem Augusto seguia pelos trilhos.

Morgado sentiu fome e começou a comer uma das maçãs, nem ofereceu a Augusto, pois agora Augusto era o trem que o guiava até o seu destino e parecia tão atarefado com os passageiros que não paravam de chegar de todos os lados.

Estava difícil de engolir, no último pedaço Morgado engasgou. Engasgado, tropeçou, perdeu o equilíbrio e caiu. Os guardas entraram na cela lotada para tentar conter o tumulto e a gritaria, tarde demais.

Ao colocar um lençol cobrindo Morgado, o carcereiro viu que ele segurava uma maçã em cada mão, e que na boca enfiaram uma outra em pedaços. Aparentemente morrera sufocado no dia em que seria posto em liberdade, mas a sua história não convenceu o chefe.

Augusto, olhou para trás e pediu para que Morgado continuasse seguindo seus passos pelos trilhos mata adentro. Na parada seguinte, para a sua surpresa, Morgado também começou a receber seus passageiros. E após o terceiro aviso, os dois trens lotados, partiram.

 

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