Tem gente que fala de morte como se entendesse dela. Como se fosse seu amigo ou amante. Tem gente que fala de morte como se a tivesse conhecido. Entende o que eu quero dizer? Percebe as minhas palavras como eu percebo as dessas pessoas? Pois elas falam de morte. E quando falam de morte, tudo o que posso fazer é mostrar meus dentes num sorriso debochado.

Meu caro amigo – que de caro eu não te tenho é nada, e muito menos amigo! –, não se fala de. Para se falar, precisa se falar da. Daquela maldita vaca. Daquela deliciosa amiga. Daquela que me sorri todas as noites, e tudo o que faço depois de aceitar o que ela me oferece é mandá-la tomar no meio do…

Tudo bem, não vou xingar. Vi que você é do tipo afetado com palavras de “baixo calão”. Baixo calão… Puf! Ninguém fala isso mais, hoje em dia. Chego até a pensar no mano João, com toda aquela educação que fazia minha mãe sorrir feliz. Eu, por outro lado, era a desgraça dela. Por isso talvez que tenha ido cedo para junto daquela família dela, bem debaixo da terra, virado comida de minhoca. Pois alguém que se ultraja e coloca de castigo uma menina que esquece de pentear os cabelos, com certeza bateria as botas quando essa menina se transformasse em mulher aos quinze anos, e com o filho bastardo do vizinho.

Mas deixe de falar do… Tudo bem, esqueci o nome do bastardo. Ele não era importante. O que importava era o que ele tinha a oferecer, se é que você – criatura que não pode ouvir palavrão algum – me entende.

Vamos falar dela. Da Morte. Aquela que faz brincadeira com a cabeça das pessoas. Que adora sussurrar em nossos ouvidos, passar as unhas em nossas costas como se estivesse fazendo amor sob a lua, enlaçar em nossa alma como a voz do primeiro amor. Sim, a Morte é tudo isso. Principalmente quando você se apaixona por ela, como aconteceu comigo. E eu me apaixonei pela Morte desde a primeira vez que respirei nesse mundo.

Sempre que ela está perto de mim, minha pele se arrepia, meu corpo treme, meus nervos ficam tão sensíveis que um sopro faz com que eu me contorça. E já estive em posições necessárias – e não somente numa cama macia – para entender o que são esses sintomas. A Julinha dizia que eu, na verdade, era doente, que precisava “tratar da cabeça”. Mas o que aquela menina sabia, além de beijar – e muito bem, diga-se de passagem?

O Tico é mais compreensível. Talvez ajude o fato de ele ser um completo retardado, também.

— Ela está aqui, não está? — ele me pergunta enquanto me olha de cima. Tico sabe quando estou procurando pela Morte; meus olhos sempre ficam vidrados e meu corpo, tenso.

— Quase.

— Quem é dessa vez? Está vendo?

Ele está empolgado. Nem parece que eu sentir a Morte, enquanto estamos viajando num trem velho, é um presságio ruim. Como eu disse, retardado.

— Não — respondo. — Não estou vendo.

E isso é novo. Eu sempre via quem a Morte buscava. Vi quando ela levou a Julinha, quando levou minha mãe, quando levou o mano. Vi quando ela levou um menino e um homem que o seguia mata adentro sobre trilhos. Vi até mesmo como ela levaria o Tico – mas esta última morte não me era tão novidade, assim.

— Termine o que começou, Tico — falo para ele, empurrando aquela cabeça cheia de cachos para onde eu o queria. Ele não se faz de rogado e logo me esqueço de ver onde a Morte está e quem ela vai levar dessa vez.

Não demora muito para eu responder ao ardor de Tico. É nesse momento que a Morte passa as unhas em minhas costas, sussurra em meus ouvidos. É extraordinário, confesso. A primeira vez que a senti, foi sozinha. Eu comigo mesma – sério, você deveria experimentar isso. É libertador. Mas quando se tem outra pessoa consigo, a própria Morte se encarna e faz tudo isso – sim, estou falando de sexo, lide com isso – muito melhor.

Procuro pelos olhos de Tico quando ele entra em mim. Ah, os mais jovens são os melhores. Tanta força e energia! E lá está ela: a luz branca e quente nos olhos antes castanhos. Vejo um menino no trilho do trem, um homem que parece o estar seguindo; vejo choro e desespero; vejo alívio em meio à dor; vejo redenção. Vejo imagens que invadem minha mente enquanto a Morte me faz apaixonar-me por ela ainda mais.

— Está pronta para mim, menina? — ela me pergunta na voz de Tico, mas eu percebo a nuance fria por trás, a voz que me cativa, o ardor selvagem que me assola todas as vezes.

— Sim! — eu grito em resposta enquanto sinto que meu corpo está prestes a explodir.

O sorriso da Morte, nos lábios de Tico, é maravilhoso. Sorrio de volta. E quando meu corpo finalmente encontra o êxtase e a tensão vai se perdendo pouco a pouco, ela ainda está lá.

— Não vai dizer nada de baixo calão, menina?

— Você acabou de fazer o que eu mandaria você fazer.

A Morte ri.

— Mal vejo a hora de te buscar.

— Estarei esperando.

— Sim, estará.

A luz branca nos olhos de Tico começa a se apagar. Mas, como esperado, ela volta um segundo depois.

— Quer que eu o deixe para você?

Dou de ombros. Já esperava essa pergunta.

— Posso passar para o próximo vagão sem problemas.

— Sim, você pode. Vou deixá-lo para você, entretanto. Como um presente.

E isso era novo. Mas não me mostro agradecida ou aliviada.

Um segundo antes da brancura dos olhos de Tico se transformarem em dois luminosos pontos castanhos, a visão veio. Prendi a respiração. Nunca era fácil. E percebi, finalmente, que a visão do homem e do menino nos trilhos do trem era mais uma peça do quebra-cabeça que, finalmente, estava finalizado.

Vi as lágrimas nos olhos de Tico. Ele também tinha visto o que a Morte me mostrara. Os trilhos do trem: era onde ela me esperava. Então, abracei um Tico trêmulo enquanto olhava para o nada, esperando que a Morte – minha amiga, amante, única que me entendia de verdade – também viesse me buscar nos trilhos daquele trem que logo encontraria seu fim.

 

Anúncios