Detesto quando falam baixo sobre mim, da forma como eu me aproximo e os levo praticamente flutuando, assustados. Me sinto como um lixeiro, sendo olhada de viés, com uma mistura de nojo, medo, escárnio e dúvidas, um caldo viscoso, o próprio chorume – detesto também esse nome. Mas o meu sentimento final sempre é de pena já que todos contribuem decisivamente para o fim com suas vidas desregradas, agitadas e cheias de venenos mentais e físicos. O que fazer quando culpar alguém de fora, que apenas cumpre um designo, é a solução psicológica que recorrem disfarçando as suas culpas?. Coitados, os levo assim mesmo, putos com o chefe, com o médico e culpando qualquer coisa ou pessoa pela inevitável transição…e principalmente putos comigo.

Hoje foram milhares num único dia. Está piorando. Some doenças mais agressivas aliadas a laboratórios gananciosos, acidentes de trânsito sob efeitos de ódio, drogas e depressão, guerras lucrativas e o escambau. Já pedi férias ao Todo Poderoso, mas ninguém quer me substituir e ele não acredita em trabalho forçado. O meu é o quê? Voluntário? Acho que tem algo errado na cúpula do poder. Eles não gostam que me refira dessa forma, a chamam de conselho do bem. Sei…

Já me acostumei à lida, às caras e bocas, às tentativas de fugir da minha visita, às negociações infantis e até engraçadas, às promessas de última hora, mas só não me acostumei aos “E se…” que povoam a mente daqueles que não são pegos de surpresa e encontram-se em leitos de hospital ou em suas casas, acamados, aguardando o inevitável.  Projetam tudo aquilo que não realizaram em sonhos coloridos e que assisto com melancolia e compaixão. Me debruço sobre suas carcaças que esfriam, sinto seus hálitos mofados e observo as lágrimas que descem e as que ficam presas nos olhos criando poças.

Essa é, curiosamente, a  parte que mais gosto, não por maldade ou sadismo, mas pela beleza criativa e dos detalhes. Vejo que sabem exatamente o que os poderia ter feito felizes e adiaram ou foram engolidos pela urgência do ter, a despeito do Ser. Enfim, não tenho lágrimas para compartilhar com eles, sequei as minhas depois de entender a razão das coisas, a lei de ação e reação. Tudo converge para um propósito pessoal e global, cada história do seu jeito e maneira e com interferência brutal de muitas decisões equivocadas em meio às certeiras.  Quer um culpado? Olhe-se no espelho e busque no fundo da sua íris.

Me debati muito no início, me fragmentando e ruindo a cada busca que fazia. Dúvidas, inseguranças, perguntas com sorrisos como resposta e principalmente expectativas e desejos, as piores inimigas de um ser, na contramão da felicidade, da paz. Aprendi observando suas memórias, seus arrependimentos e identificando-os como únicos agentes do fim de cada capítulo. Percebi que aprendiam à medida que a cortina abaixava, finalizando aquela peça, aquele personagem. Som e fúria, é o que dizem sobre cada vida. Definição simplista e mais recheada de dor do que de amor. Tem muito amor nas recordações – não tanto quando as dores e ódios -, mas elas são coloridas e passam mais devagar no que vejo deles e aprecio muito. Já falei que é a parte boa? Provavelmente sim.

Agora, abaixo de mim, fraco e com um olhar tranquilo, está o Antonio Carlos aos seus 98 anos. Me aproximo, frente a frente, corpos paralelos, esperando o de costume. Os medos, frustrações, arrependimentos e todos os “e se…” que fatalmente deixam escapar nessas horas finais. O filme da sua vida começa a vir, suave, leve e sem pressa. Sou tomado por uma sensação das melhores já sentida. Um perfume de flores do campo invade a minha memória causando-me espanto. Odores nunca me foram oferecidos nesses momentos, a não ser o comum, de seus corpos quase abandonados e lançados ao leito por dias. Ele parece me ver, com seus olhos fixos nos meus. Aceno de forma debochada. Sorri e pisca para mim. Sim, pisca. Aceno de novo, desconfiado e aquele velhinho faz um esforço e acena de volta. Ouço a enfermeira avisar a outra para comunicar a família, pois, na visão dela, ele está a delirar e certamente já está indo. Ela acertou uma questão e errou a outra: média 5.0. Eu sempre adio um pouco até alguém realmente interessado chegar e poder despedir-se com amor, nem que seja um desses anjos de branco que sustentam os hospitais. Está achando que me refiro aos de asa? Não, até porque não existem. Faço referência a esses de uniforme branco e com muitas horas extras nas costas, fazendo bem mais que a maioria dos médicos que apenas visitam seus pacientes pelo número.

Me aproximo mais, curioso pela névoa que se dissipa das suas lembranças. Cores incomparáveis trazem a sua história com segundos de filme preto e branco entremeados ao contexto belíssimo. O que vejo me faz chorar e sou atropelado pelo meu segundo espanto. Está claro de que aquela transição será marcante. Muitas realizações simples numa vida cheia de esforços na direção certa, milhares de momentos para sucumbir aliados a um número igual de outros milhares de perseverança. Avançam as imagens, os motivos, as alegrias e as tristezas, e nada de remorsos ou arrependimentos. Pálido, mas feliz, sussurra ao meu “ouvido”:

– Já estou pronto, meu amigo, faça o que tens de fazer pois estou cansado dessa veste puida e precisarei de outra para prosseguir aprendendo e ensinando. Quando tentamos ou fazemos de tudo numa vida, com amor, nenhuma dor pode nos dar acolhida, mas quando deixamos de tentar, sobram buracos na alma, um vale de lágrimas e ranger de dentes.

Percebo que ninguém chegará a tempo. Não posso estender mais a dor física que se avoluma apesar de seu semblante calmo e as doses de morfina que já não trazem conforto algum. Trago-o no colo, diferente de todos, para seguirmos viagem. Ele me olha e continua:

– É muito bom te ver de novo, sempre me aliviando do fardo pesado dessa hora.

Nada digo, apenas deixo minhas lágrimas que recentemente voltaram, falarem por mim. Foi meu último resgate, última transição que realizei e finalmente entendi por que sempre me responderam com um sorriso.

 

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