Era um atentado sem tamanhos o que ela assistia, a incapacidade pinicando cada parte de si como mil agulhas irrefreáveis e tão, tão cruéis, quanto o que a criatura à sua frente enfrentava. Bem, talvez não tão cruéis. Como se mede a dor alheia, a não ser baseando-se em nossas próprias? E, por isso mesmo, como se pode não subestimar – ou, muito raramente, valorizar demais – o que tanto dilacera o outro?

Já não sabia mais, exatamente, como agir a cada vez que enxergava a dor em outrem. Quando jovem, ainda menina em seus pés descalços pelas calçadas quentes da cidadezinha em que vivia, imaginava-se a curandeira de um filme de dragões; ou os milagrosos médicos dos programas que a mãe assistia. O pai não acreditava em nenhum: dragões ou médicos milagreiros.

— A vida é uma merda, e tudo o que esse bando de gente branca com roupa branca faz é jogar um pouco de água naquilo que fica marcado e fedendo.

Era o que ele dizia, amargo demais em sua lida. Ela chorava, quando menina. Chorava pela desesperança do pai, pela dor que transbordava dos olhos bonitos, pelas marcas num rosto que não era velho, mas que parecia carregar todos os anos do mundo. Hoje, depois de enfrentar com dentes arreganhados e garras de bicho tudo o que lhe apareceu, ela não o culpava. Quiçá ousava medir a dor dele, comparando infantilmente com a sua própria. Raramente conseguia chegar em uma medida exata. E, quando chegava, nunca era a sua dor que usava como base, mas a do outro. E, é claro, sempre dependia do que ela enxergava.

Daquela vez, a dor veio em mil agulhas que pinicavam. Lembrou-se do rosto do pai. Da amargura dos lábios que contrapesava com os braços acolhedores. Do peso nos ombros curvados que os pés leves naquelas tardes de domingo regado a sol e calor conseguiam levar para longe e depois trazê-lo para perto. Lembrou-se do rosto enrugado em seus poucos quarenta anos, mas que ainda emitia uma beleza que lhe aquecia o peito.

O pai era tão bonito. De um jeito diferente, mas ainda assim, bonito. Sabia que era essa beleza que a mãe tinha visto: a que de tão grande dentro de si, esvai pelos poros, fazendo a pessoa brilhar. E aquele menino na sua frente tinha a mesma beleza. E também a mesma dor. E o mesmo pesar.

Como uma criança é capaz de carregar tanto pesar? O que de cruel já presenciou para que o mundo lhe parecesse velho, as pessoas lhe soassem tolas, deixando apenas o amor ser o único e possível alento? Uma criança jamais poderia ser assim. Não poderia usar o amor como paliativo. Amor deveria ser cura. Apenas cura.

— Você vai ficar bem — dizia a mãe, uma mulher mirrada de olhos brilhantes pelas lágrimas, encurvada sobre o menino regado de amor. O pai, do outro lado da cama, segurando a mão tão magra, simplesmente sorria; um sorriso molhado, já.

E ela sentiu as agulhas lhe pinicarem de novo. Desceu os olhos, vislumbrando o crachá sem graça, preso ao bolso do jaleco com marcas de uso. Leu seu próprio nome, o que fazia naquele hospital. Tudo tão simples. Sua ocupação e seu nome. Quase se perdia pelas paredes encardidas, mesclando-se a elas, quando pensava que nada adiantava estar ali; momentos de desespero que a tornava uma humana. Alguns até se mesclavam, como um adorno bonito. Mas não ela. Ela jamais se permitiria ser engolida por toda aquela dor, até que tudo se anestesiasse e se transformasse em algo frio. Tão frio como aquelas paredes e aquelas pranchetas.

Portanto, abriu seu melhor sorriso. Não um daqueles que faz você se lembrar de uma piada. Aqueles sorrisos que mostram sua alma, mostram do que uma pessoa é feita. E ela era feita de amor. Amor paliativo, sim, mas que escorria por seus poros e a fazia brilhar. Amor que poderia se traduzir numa refeição quente ou num par de braços acolhedores. Tudo dependia da dor que se mostrava à sua frente.

Então ela mediu a dor do menino. Mediu a dor de seus pais. E através daquela parte ainda – e talvez sempre – infantil, começou a contas históriar de como tudo realmente ficaria bem. Pois a mãe, a figura mirrada, estava certa. O menino ficaria bem. Quando tudo terminasse, quando ele enfim recebesse a última demonstração de amor daqueles que o rodeavam, os aparelhos parariam de mantê-lo em uma semivida. E ele poderia viver – de um jeito ou de outro.

Por fim o silêncio. Aquele instante quando os aparelhos não soam mais, não tem bipe, não tem o ar sendo pressionado. Aquele instante em que a pessoa parece estar voando, sem chão, sem ar, sem peso. E, então, a dor. O choro. O desespero de quem é impotente. De quem fica.

Mas também o toque. O abraço. O amor. O paliativo.

E, talvez, se o milagre acontecer, uma cura. Mas uma cura apenas para quem fica.

 

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