Ilustração fotomontagem do autor

 

Laura era filha de um alfaiate, Seu Olegário e de uma costureira, Dona Neusa. Adorava agulhas e alfinetes. Não cansava de espetar alfinetes e agulhas nas almofadinhas próprias para isso. Eram os seus bichinhos de estimação, verdadeiros porcos-espinhos.

Mais tarde na escolinha aprendeu sobre outro bicho, o ouriço do mar. Este ela fez com uma bolinha de isopor. Sua mãe quase caiu de costas quando entrou em seu quarto e viu dezenas destes bichos espalhados para todo lado. Os pais orgulhosos diziam, essa menina é um espeto.

Sua mãe resolveu ensiná-la a bordar com agulha e linha, apesar das espetadas, logo dominou o assunto e quando ela mostrava os pequenos bordados, novamente na forma de elogio os pais repetiam a mesma frase, que acabou virando um bordão da família, visto que a própria Laura adorava ouvir e fazia aquela carinha de anjo.

Os pais continuaram a repetir a mesma frase nas festinhas de aniversário da família. Apesar das caras de censura, por dentro uma ponta de orgulho repicava quando ela começava a estourar os balões com uma agulha. Isso ocorria entre o choro dos menores e os sustos dos adultos desavisados. Os espevitados primos maiores, também adoravam participar da brincadeira.

− Essa menina é um espeto! Derretiam-se os pais de Laura.

Ao contrário das outras crianças que gritavam e esperneavam para tomar uma simples injeção. Ir no posto de saúde para a vacinação era motivo para colocar a sua melhor roupa.

Laura sorria, com seu vestidinho rendado e entrava soberana. Sua mãe não entendia a necessidade da pompa, mas não achava ruim, afinal a menina não dava escândalo, ao contrário, ajudava a acalmar as outras crianças, tomava a picada e ficava com cara de quero mais.

No circo viu um faquir, atazanou os pais durante semanas. Porque queria, porque queria e porque queria! De qualquer maneira queria dormir numa cama de pregos, seu pai resolveu o assunto diplomaticamente comprando uma bola de isopor de 50 cm de diâmetro e dúzias de caixas de alfinetes extragrandes com bolinhas coloridas nas pontas.

A fixação com agulhas e alfinetes levaria Laura na adolescência a aderir à moda dos piercings. Para o horror de Seu Olegário, a coisa não parou por aí, afinal tatuagens eram feitas com uma maquininha com agulha. Agora como um lamento os pais repetiam o bordão: − Essa menina é um espeto!

No quarto de Laura tinha uma parede com placas de isopor forradas com feltros coloridos, cheios de frases, poemas e toda sorte de imagens espetadas que ela recortava de diversas revistas, folhetos e cartazes.

Não havia mais dúvidas, entre agulhas de acupuntura e seringas para injeção, ela optou pelas últimas. Seu sonho era ser enfermeira e aplicar injeções o dia inteiro. Na escola conheceu Noel, um tipo meio largado, mas que conquistou o seu coração.

Adepto aos piercings e as tatoos, Noel de cara tatuou uma enorme agulha espetada no seu coração, na agulha estava gravado o nome de Laura, mas o que conquistou Laura foram os seus poemas meio sem pé nem cabeça.

Laura entrou na faculdade. Porém, na festa que ganhou de seus pais para comemorar a bolsa que arduamente conseguiu, Noel apareceu bem chapado, apesar de ter jurado a ela que nunca mais iria se drogar. Laura despediu-se do pessoal com um tchau geral, chamou um uber e levou Noel para casa dele.

Parecia que este era o fim da picada, irritada, cobrou as promessas de Noel, mas sabia que naquele momento as palavras entravam por um ouvido e saiam pelo outro, isso é, se entravam.

Eram as únicas agulhas que ela detestava, as do vício. Bem-humorado Noel retrucava que se tratando de agulhas, ela era muito mais viciada que ele. A gracinha não funcionava, pelo contrário, deixava Laura ainda mais exasperada.

Por outro lado, pensava Laura, as agulhas não tinham nada a ver com isso, na sua grande maioria esse tipo de agulha era a condutora que inseria em forma de líquido, o alento, o alívio, a esperança e inúmeras vezes a cura.

Ela amava Noel, mesmo descabeçado, mesmo irresponsável, amava o seu poeta, porém a pergunta que a perseguia era se haveria futuro com ele, neste momento ela sentiu como se mil agulhas espetassem ao mesmo tempo o seu corpo.

Essa mesma sensação ela teria quando Noel foi diagnosticado como soro positivo no teste de HIV. Depois da trágica notícia, chegou o dia dela abrir o resultado de seu exame, mas não teve coragem.

Espetou no quadro azul de feltro. Bem no meio do quadro azul esperança, como ela o chamava. Sabia que o resultado estava ali, dentro do envelope e não iria se alterar por estar espetado em qualquer cor que fosse.

Depois de uma semana ela abriu, não havia contraído o vírus, deveria repetir o exame, mas agora tinha confiança de que as medidas preventivas que ela havia tomado foram eficazes.

Não abandonou Noel, porém este acabou terminando o namoro, estava tomando o coquetel e tinha voltado a estudar. Não se viam com a frequência de antes, visto que Laura além de estudar com afinco, já estava estagiando.

Infelizmente o coquetel que no primeiro ano e meio tinha dado esperanças a ele, não surtava mais efeito e uns meses depois, Laura recebeu uma foto pelo seu celular com uma mensagem.

A foto era do peito de Noel, que apesar da deformação do desenho, ainda podia ler o seu nome na agulha. A mensagem era um poema:

 

Um peixe espada atravessa meu peito

Nada a temer num coração descompassado

Os pés e as mãos cravados de espinhos

Quando num último momento

Tentei fugir da arrebentação nas pedras

 

De um romance naufragado

Num belo mundo cor de rosa

Que guardava um triste segredo

Na caixa preta da paixão

Mantendo aprisionado os sentidos

 

Lanço os botes neste mar salobro

Salve-se quem puder!

Foi à última frase que ouvi

Talvez eu mesmo a tenha pronunciado

E agora mergulhado no silêncio

Ouço apenas a minha voz

 

Dizendo que amo você

E sempre amarei!

 

Como somente mil agulhas cravadas no corpo pudessem descrever a dor e a alegria que ela sentiu quando entrou no quarto do hospital a tempo. Neste estado quase surreal ela pegou carinhosamente a mão de Noel. Ele a olhou nos olhos e sorriu no seu último suspiro.

 

Anúncios