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Era o terceiro médico que visitava neste mês. Tinha dezoito anos e uma aguda vergonha de ser acompanhado pelos pais em cada uma das consultas. Mas vivia em águas turvas desde que completara a maioridade: sentia uma solidão, um vazio. Mas esse buraco negro era mais repleto do que qualquer espaço abarrotado.  Era oco e sufocante ao mesmo tempo, como se estivesse apertado em um quadrilátero de meio metro quadrado, ao mesmo tempo que sentia que poderia cair infinitamente em um poço sem fundo – dentro de si mesmo.

Mas, entre os vastos e inabitáveis campos internos e o ar denso e compacto que sentia do lado de fora decidiu estar acompanhado dos pais. Era certo que estava doente, não havia dúvidas disto. Precisava descobrir o que é. E nessa ponte estreita para a vida adulta, ainda tinha muita coisa que ele não sabia sobre o mundo. E não: sua preocupação não era a imaturidade emocional a respeito das coisas da vida (e como a vida tem coisas!) e sim das prosaicas ações cotidianas que desconhecia. Que médico vou? Que remédio tomo? Essa planta verde escura faz bem para que?

De modo que, quando irrompeu na sala dizendo que precisava ir ao médico urgentemente, o pai e a mãe estranharam. Mas, assim como ele, os dois eram um misto de vazio e sufocamento, tão próximo dos sentimentos agridoces que os pais têm pela vida toda. “Que meus filhos cresçam para o mundo”, dizia o pai. “Mas que o mundo não passe do nosso quintal”, pensava a mãe.

O sintoma era um só: uma forte agulhada no peito. Sentia isso há semanas, e só. Não tinha febres, calafrios, falta de apetite, nada. Era como se um duende travesso (ou um demônio mal intencionado) tivesse aberto seu peito numa noite de sonos profundos e espetado com força uma agulha lá. E se esse saci-alfaiate tinha feito isso para deleite próprio ou por algum tipo de necessidade maior, ele desconhecia. A agulha estava lá. E precisava sair com urgência.

Mas era o terceiro médico que consultavam, todos eles especialistas em agulhadas no peito, e ele não se dava por satisfeito com o diagnóstico. “Não há nada”, diziam. “Mais fácil ser atingido por um raio do que ter algo de errado com seu coração”.

Mas dessa vez, assim que saiu do consultório, ainda na rua, ele deu um grito que era – de um só modo – alto e abafado. Paradoxal, como todas as coisas recentes que aconteceram em sua vida. Num choro calmo e descompassado, agindo como um louco comportado, ele não sabia para que direção correr ou o que falar. Sobre sua condição, pensava, era o senhor absoluto.  Não poderia haver alguém melhor do que ele para dar seu diagnóstico. Não importa o que diziam os médicos ou os exames, a agulha estava lá, completamente atravessada dentro do seu peito.

Resolveu seguir. Seguir com a vida. Entendeu que, talvez, a agulha espetada fosse algo crônico, algo que se adquire com 18, 19, 20 anos. Algo que fica, permanece de um jeito tão peculiar que passasse a fazer parte dele, como um pino em um joelho quebrado ou um implante em um órgão qualquer.

“Só eu posso dizer o que sinto” repetia. E serenou. Aprendeu a conviver com essa pontada frequente, ciente de que é possível ter um inquilino incômodo morando dentro do peito, desde que a gente abra o espaço da casa para outros acontecimentos.

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