Respirou fundo, comprou a passagem, arrumou suas tralhas (apesar de esquecer várias coisas, pois deixou pra arrumar tudo de última hora) e partiu, de repente e de ônibus, pro país vizinho.

Não importava qual fosse, só precisava ser longe de seus pais, que lhe faziam sentir vergonha e comodismo com seus excessos (ou normais paternais) de cuidados, ainda que soubesse que ambos o amassem. Também sentia que precisava estar fora de seu país. Aliás, veja como são parecidas as palavras “pais” e “país”… Deve fazer sentido deixar ambos para trás.

Já fazia muitos anos que sentia a misteriosa agulha em seu peito. Achava que nada poderia resolver esse problema, com o qual teve que aprender a conviver. Nem imaginava como a agulha não caía no buraco negro que guardava dentro de si. Que engolia tantas outras coisas de seu ser. Mas quem sabe essa viagem não ativasse algo que desintegrasse essa agulha e até tapasse o buraco negro.

Era desafiante se virar sozinho num país diferente. E era bem engraçado falar como se estivesse “chovendo” ou fazendo “xixi”, falando “chhh”, “shhh” em várias palavras, variante única do idioma local. Felizmente chuva não tinha, só as ondas do mar gelado. Esqueceu do cachecol em casa, teve que comprar outro. O guarda-chuva por outro lado, por ora inútil, não deixou de trazer; era obrigatório em sua cidade de origem. A temperatura chegava a quase 0 graus Celsius. Com muito vento. A poética e pictórica ventania espalhava as folhas das árvores nuas pelas calçadas.

As pessoas perguntavam sempre por que ele foi parar justo nessa cidade costeira, que nem era a mais importante do país. Não havia uma resposta certeira. Poderia ter sido qualquer cidade. Como dizia o gato da história de Alice no País das Maravilhas, se você não sabe onde está procurando, qualquer lugar está certo.

Também achavam graça que ele vivendo no país rival do seu bem na época do maior torneio esportivo mundial. E ainda ficavam perguntando qual era o maior atleta, o ícone nacional local ou o de seu país. Ele não ligava pra isso. E nem importava mesmo, pois as duas seleções, ambas favoritas costumeiras, não estavam se dando muito bem mesmo nesse ano. Provavelmente uma ilhazinha desconhecida iria ganhar o torneio.

Acabou fazendo amizade com alguns jovens locais num bar, que, bem receptivos, o chamaram para uma danceteria. Bebeu alguns copos de cerveja com eles, desfrutando o momento e a companhia. Mas não estava acostumado e não conhecia seus limites. Ao chegar em casa, estourou em dor de cabeça. E soltou muito do que ingeriu no vaso sanitário. Tomara que a agulha ao menos tenha caído junto. E o buraco negro. se é que um buraco negro pode cair em algum lugar.

{Foto do autor}

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