Saí do evento às sete, a temperatura havia caído bruscamente. O hotel estava localizado a uma distância que não precisava pegar qualquer transporte. Decidi que iria a pé. Não foi uma solução bem pensada. Congelei meu nariz. Batia um vento desagradável, quase morri.

O motivo principal da viagem era passar uma semana do outro lado da fronteira, perto dos los hermanos, onde o sol brilha no sul. Mas não deu. Precisei inventar uma nova rota para ligar os meus pensamentos. Resolvi que iria para aquele hotel bem novo, indicado pela guia de turismo. Corri para reservar um quarto. O hotel inteiro foi preenchido por uma caravana de aposentados sedentos por conhecer as belezas de Bento. Precisei verificar rapidamente como poderia salvar o meu dia, minha semana. Mudei de perspectiva, e de serra.

Consegui com muito custo uma pousada bem interessante, de acordo com as fotos que pude acessar. Chegando lá, deparei-me com uma recepcionista de Alfred Hitchcock. Como assim? Não tive dúvidas, perguntei se poderia usar o banheiro, o que logo fui atendido. Resolvi as minhas indagações e, depois, procurei não desfazer a mala, pois não havia uma viva alma nos corredores, os quartos estavam vazios, todos! Situações surpreendentes. O frio permanecia em meu corpo, e agora não me sobravam muitas opções. Arriscaria a margem oposta. Foi o que fiz. Ali continuei a sentir o gelo do lugar, quase nevava; o meu corpo atingira um nível insuportável.

Fui visitar o papai Noel. Naquele momento, comecei a perder a noção de realidade; percebia-me dentro não do livro de Lewis Carroll, mas da película de Tim Burton, que se transmutava em possibilidades remotas do L’auberge espagnole, de Cédric Klapisch.

      Decididamente, começava a acreditar em portais, em aberturas infinitas, no deslocamento do tempo. Não entendia a conexão que me levara para outras vidas. Um pequeno instante de lucidez restaurou o texto. Agora só precisava de uma agulha singular para alinhavar o nó do bordado do Passadiço, nó perdido no tecido, na solidão do sertão, sofreguidão da garganta, último ponto do novelo.

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