“Noite de vento, noite dos mortos…”
Ana Terra, personagem de “O tempo e o vento”, de Érico Veríssimo.

O inverno era das coisas mortas, do frio e das assombrações. Aquela era a noite mais fria do ano, a mais longa e interminável. O minuano assobiava pelo pampa, espalhando sussurros de outro tempo. Ouvir o vento é ir passear com ele pelas estâncias e imensidões remotas.

Encolheu-se um pouco, dominada por um calafrio. O assobio do vento é o cantar dos mortos que viaja no tempo, cheio dos mistérios do mundo.

Arrematou o ponto do crochê, tentando orientar-se na solidez dos meandros já tecidos. “Tolice”, pensou, “que se quisesse, desfazia toda a peça e costurava outra”.

Largou a agulha e alimentou a chama do fogão à lenha ao lado do qual se sentava. Ainda assim, fazia tanto frio, que estremecia. Quem dera seu Antônio ainda estivesse ali… Era sempre primavera nos seus abraços. Ele agora era parte do coro da ventania, que não cessava. Seus dedos sulcados bem gostariam de enlaçar os de seu amado e partir pelo mundo afora. Iam ser brisa morna em Paris, aroma de primavera em Amsterdã, sopro para as pétalas de cerejeira no Japão,…

Suspirou e riu de si mesma, uma velha com sonhos de amor que eram mais pra adolescente. Decidiu que bastava de sonhar acordada naquela noite.

Foi deitar-se, ainda ouvindo a viração, que abrandara. Enfiou-se embaixo das cobertas e, súbito, sentiu um abraço. Os dedos incorpóreos eram gentis e o sussurro sob seus ouvidos era um convite. Fechou os olhos com deleite, adentrando o transporte de sua última viagem, que ia ser vento, imensidão completa.

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