De súbito acordava, meio assustado, confuso e procurando referências conhecidas. Tudo se mistura nesse momento e um alinhamento da percepção e da realidade demora o tempo que precisar para trazer a lucidez. Damos sempre uma “forçinha”

“Que lugar é esse? Tem algo familiar, mas por que sinto desconforto e angústia?. Estava há pouco andando pelos campos tranquilos perto de casa quando senti uma dormência invadindo meu corpo pelo peito e me vejo aqui, assim.”, pensou Antonio, ainda entre duas dimensões mentais e ligado ao último personagem.

Estávamos próximos dele nesse novo retorno ao lar e já esperávamos o natural embaralhar das memórias e vivências. Ele continuava produzindo perguntas sobre perguntas. Nos aproximamos devagar, eu e Nestor, seu amigo de velhas datas, que veio dias antes (vários anos para o tempo de vocês), para situá-lo em suas perguntas mais urgentes e que nos chegavam como um pulsar de energia.

Ele nos viu, pasmo por alguns instantes e começou a chorar. “Para bom entendedor uma imagem vale por meia palavra.”, citou o amigo, ao abraçá-lo, a frase que Antonio inteligentemente bagunçara e usava quando chegava ao bar, as sextas, e via todos juntos o esperando (pontualidade não abastecia suas necessidades).

Seus pais e alguns outros parentes e amigos esperavam a uma certa distância até que ele começasse a sorrir. Ninguém melhor que o Nestor para quebrar o gelo, a formalidade e equilibrá-lo. Mais um pouco e toda a memória daqui se restabeleceria, juntamente com as de outras épocas.

Eu acenei e os deixei conversando e colocando as novidades do Nestor em dia, claro, pois as dele nós acompanhávamos desde muito tempo. Ia me distanciando e ouvindo, mesmo ao longe, as histórias dos pampas, do chimarrão num belo churrasco mal passado em noite de lua cheia, da companheira que deixara de súbito…

Tinha outro retorno para preparar e auxiliar em três dias e como aqui o nosso tempo difere em muito o daí, receberíamos, inicialmente em três, a companheira de Antonio, a minha filha querida e que já velha iria encontrar-se, ao deitar, em lembranças quase reais do contato com o seu amado.

“Uma única vida é muito pouco para tanto aprendizado, tantas mudanças e evoluções”

 

 

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