ilustração do autor

 

Coisas do seu pai Lila, coisas do seu pai, organizar esse álbum para você… não sossegou enquanto não terminou. Credo mãe, que coisa para se falar! Só porque ele morreu em seguida? Filha eu não tenho nenhuma dúvida, passei a vida toda sondando e vasculhando inúmeras religiões como você sabe. Sim mãe eu sei, o que você pensa. Sabe? Sim, que Deus é sempre o mesmo, mas o que fazer se os homens insistem em o conceber de diversas formas, é isso? Mais ou menos Lila. Mais pra mais ou mais pra menos? Nossa você é idêntica ao seu pai.

Você sabe mãe, de todas as analogias em relação a vida eu prefiro a da viagem, bem simples e diz tudo, começa no nascimento e termina quando morremos. Então filha, eu concordo que seja por aí, gosto dessa visão, mas para mim a morte é só uma parada, a viagem continua em outras paragens e depois retornamos para recomeçar essa viagem novamente.

Seu pai mesmo dizia que nesse ir e vir encontramos e desencontramos nossos pares, pela lógica do copo meio cheio ou meio vazio, alguns acham que desencontramos mais que reencontramos. Ele ou você dizia isso mãe? Acho que o pai dizia que essas suas especulações eram intermitências lógicas… ou ilógicas, não é? Ah não sei filha, depois de tanto tempo juntos acho que vamos fundindo ou mesmo confundindo as ideias, não me lembro.

No silêncio que se instalou, Lila buscava compreender, passou algo parecido com o seu pai, mas mesmo assim não se sentia preparada, ontem mesmo passou mais um momento difícil com a sua mãe acamada, ninguém atende, meu irmão nunca atende o celular, não soube o que fazer na hora, se chamava a ambulância, se media a pressão ou aplicava uma compressa de água fria, mas esse fato bastou para voltar as velhas discussões com o namorado que não acreditava em absolutamente em nada.

Lila estava confusa, sonhou novamente com o pai, parecia que eles estavam na mesma praia. Com três anos de idade, Lila estava doida para conhecer a praia, não o mar, mas como você não quer conhecer o mar, perguntava o seu irmão antes deles irem viajar, Lila queria mais que queria pisar na areia, isso bastava, no caro perguntava insistente, já chegou, tá perto pai, já chegou pai, perguntava Lila choramingando, quando chegar eu aviso Lila.

É melhor você parar aqui mesmo, falava a mãe para o pai consolando Lila no banco de trás, pronto chegou, seu pai acabou parando na primeira praia que apareceu, pequena, cheia de enormes pedras, mas com o chão forrado de pequenas pedrinhas, era uma prainha da antiga estrada para Itanhaém, ela desceu ligeira do carro, oba, tentou cavar, não deu, a pazinha de plástico entortava, a areia debaixo das pedrinhas redondas era dura, espessa e escura.

Vamos Lila, pega suas coisas, papai vai achar uma praia melhor para você, e voltou aquela choradeira, já vai Lila, já vai, um pouco mais para frente encontraram uma praia com a areia mais clara, mas ainda era grossa, Lila não quis nem saber, oba, desceu novamente com o seu baldinho e pazinha, oba, começou a brincar. Olha o mar Lila, vamos pelo menos molhar os pés, não quer?

Lila nem ligou para o mar de ondas calmas, desceu do carro bem perto da estrada, aqui tá bom pai, você não quer ir com o papai molhar os pés, insistia enquanto Lila ia fazendo bolos de areia, prédios que depois pisava, ela e sua mãe eram as poderosas incas venusianas*, dando risadas, Lila com as mãos na cintura era agora o National Kid**, esticando os braços voava para salvar o que restava da cidade, mas tropeçou nos últimos prédios que ainda estavam de pé, fazia vento calmo, mas um tanto mormacento, esse foi deixando as bochechas rosadas de Lila, vermelhas, pensei que nublado não precisava trazer nada para proteger, era hora de voltar, confessava aflita a sua mãe.

No carro, Lila falou para o pai, promete, jura pai, juro, ah pai não vale cruzar os dedos, jura vai, que vai me levar na praia de areia fofa, disse com as mãos espalmadas no volante, juro, eu juro coração, agora senta, nas férias eu vou arrumar uma praia pra você afundar o pé, coisa que o irmão mais velho vivia dizendo para ela. A diferença de idade entre eles era muito grande, Lila chamava o irmão de tio, pois todos os tios tinham barba. O pai prometeu, mas demorou para cumprir, ai filha desculpe, neste ano o papai não vai poder tirar férias, no outro e no outro e no seguinte surgia sempre um outro contratempo, assim sucessivamente até os seus dezessete anos.

Nessa ocasião foi com o seu pai na praia que ela havia sonhado na noite anterior, ao descerem do carro, ele pediu para Lila fechar os olhos e dar a mão, não vale abrir Lila, é surpresa, Lila obedeceu, logo seus pés afundaram na areia, o sol ainda não havia escaldado, mas a areia estava quente, ela sorriu, deu risada, chorou, e ficou remexendo a areia com os pés, nesse momento seu pai já andava em direção à praia, ao virar viu que a filha estava realizando um sonho, daqueles sonhos que pela sua simplicidade nos trazem uma verdadeira felicidade.

Na correria eles haviam esquecido a máquina fotográfica, que pena hein pai, paciência Lila, na próxima vez eu vou dormir com ela no pescoço, eu já tinha até colocado o filme, puxa pai que pena, é eu sei Lila, seu pai tinha mandado revelar antes de viajar o primeiro rolo de filme colorido da família, na penúltima página preenchida do álbum parecia um encontro de águas, parte preto e branco e parte colorido.

Era um filme colorido de 24 poses, mas não há de ser nada Lila, ele fixou o olhar na filha e ela nele, piscaram ao mesmo tempo como se fosse um mudo clique, parecia combinado, mas não era, tiveram a ideia ao mesmo tempo de gravar aquele momento na memória, sorriram em cumplicidade. Essa foto não precisa nem revelar Lila, relembrava a frase do pai, mas agora pensava, que essa foto mental geralmente se revelava arredia, Lila não conseguia ver quando e como queria, sentia a imagem, as vezes ela quase aparecia, mas atrás de um véu diáfano que a escondia.

Seus pés afundavam naquela areia macia, numa das mãos segurava os chinelos, na bermuda levava um creme branco que logo haveria de passar, nela e no pai que virariam aqueles seres de narizes brancos que povoavam as praias naquele tempo, venha Lila a água está uma delícia! O pai estava até o joelho na água que estava muito fria, as espumas desenhavam curvas que logo sumiam, puxa pai que mentira, a água está um gelo, gelo nada Lila, entra que você se acostuma. Lila pensava, um dia iria morar na praia, fazia parte da sua viagem nessa vida.

Com o tempo passou a adorar o mar, mas não entrava nele, era igual ao pai, só até o joelho, daí não passava, queria sentir a areia se movimentando debaixo dos pés, era quase uma areia movediça, além disso não se sentia segura, a onda vinha e puxava a areia por debaixo e ela desequilibrava. Logo procurava firmar os pés novamente, ai pai me segura, seu pai dava a mão e opa, ah pai me segura!

No mais gostava de ficar na areia fina e macia e de longe ver as crianças montarem seus castelos, com fossos e torres que a maré derrubava quando subia. Queria ir na praia com mais frequência, mas isso só faria depois que o pai falecesse, por enquanto ajudava a mãe a cuidar dele todos os dias. Na sua meia idade arrumou um namorado, com esse entrou no mar até a barriga, com ele viveu sensações nunca vividas e com esse mesmo discutia sobre essas questões que no fundo lhe afligia. Quando ele voltou de viagem, Lila contou sobre a emergência com a sua mãe, sobre o álbum e daquele dia na praia.

Também revelou que guardou a câmera do seu pai como lembrança, não tirou nem o filme que ali havia, mas seu namorado reparou que no marcador estava no número 9. Acho que não vale a pena, dizia Lila, mas ele insistiu e tirou fotos de Lila, diga xis, olhe o passarinho, dela com a mãe, diga xis, olha o passarinho e umas duas ou três do cachorro, diga… esquece, olha o passarinho, mandou revelar, na quarta eu pego as fotos, você vai ver Lila.

O namorado feliz com a sua iniciativa se gabava que tinha certeza de que as fotos ficariam boas, boas entre haspas, provavelmente um pouco sem vida, sair sai, isso eu sei, mas pode sair com manchas por causa do filme vencido, mas qual não foi a surpresa de Lila na quarta à noite na sala, meu Deus, até deixou cair as fotos de suas mãos, seu pai e ela revelados em fotografia naquele dia na praia, no mesmo ângulo que o registrado pela sua retina, intrigada e encantada com a foto, recolheu as fotos do chão e não se deu conta de que… mãe, mãe você não vai acreditar, dizia Lila mesmo antes de entrar no quarto em que sua mãe dava o último suspiro.

 

* Os Incas Venusianos eram inimigos do herói televisivo japonês da década de 70 aqui no Brasil, National Kid.

**Link para National Kid: https://pt.wikipedia.org/wiki/National_Kid

 

 

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