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Era um azul claro e um bocado de branco das espumas que acertavam a areia. E bege clarinho, que variava de tom, quando molhado. Eram cores que, a luz solar, pareciam saídas de uma aquarela, que invadia limites e deixavam as coisas sinuosas, arredondadas, quase turvas. As cores da água se confundiam também com o azul do céu, o branco da espuma com o branco das nuvens de modo que, naquela manhã quase vazia, a paisagem era um constante reflexo de cima e de baixo, sem a certeza de quando começava um e acabava o outro. Era idílico, era sonho, era um tempo contemplativo. O homem de meia idade sentado, sentia o tempo parado e as sensações misturadas. A menina curiosa que logo se sentou ao lado dele, sentia que aquele era o cenário ideal para uma pergunta.

– Pai, morrer é bom?

– Como assim?

– Todo mundo parece feliz quando está morto.

– Que “todo mundo” é esse?

– Todos que eu vi… Parecem calmos, tranquilos…

– Sem vida?

– É. Sem vida, claro… Mas…

– Então, é fácil ficar tranquilo se a gente não tem a vida pra incomodar.

– Mas tem gente sem vida que continua vivo, incomodando.

– Ah filha, você fala umas coisas que até eu me confundo

 

Silêncio. O som das ondas era uma trilha sonora perfeita que embalava a conversa, ao mesmo tempo que a paisagem daquela praia emoldurava o quadro todo.

 

– Pai…

– Lá vem…

– E viver? Viver é bom?

– O que você acha?

– Não sei ainda. Sou muito nova.

– Mas está viva.

– Mas faz pouco tempo. Queria saber do senhor…

– Tem dias que sim.

– Só dias?

– Ora essa! Nada é sempre bom. Tudo pode ser ruim às vezes.

– Até chocolate?

– Até chocolate!

 

Silêncio. O som de um pássaro era o solo da música que a natureza da praia compunha para eles.

 

– Algum dia eu vou ter que escolher né?

– O que?

– Entre a vida e a morte.

– Você já está escolhendo…

– Já?

– Sim!

– Como assim?

– Você está de pé. Você está aqui do meu lado, olhando a praia.

– Mas eu só acordei…

– Já é uma escolha.

– …e vim pra cá.

– Então?

– Então… Não fiz nada!

– Fez sim. Escolheu levantar, atravessar a rua, vir para cá. Escolheu a vida.

– Eu só vim!

– Foi uma escolha. Sempre é. Poderia ter sido diferente. Poderia continuar deitada, poderia andar de olhos fechados para atravessar a rua, poderia mergulhar no mar direto, sem mesmo saber nadar…

– Sempre se escolhe?

– Sempre!

– Mas eu escolhi isso então? Sem saber?

– Sim!

– Como eu posso escolher entre a vida e a morte, sem saber?

– Pois é!

– Pode?

– Pode!

 

Silêncio. Era possível ouvir o barulho da brisa, no farfalhar das folhas à margem da orla. A menina continua.

 

– Alguém está escolhendo por mim, então?

– Pode ser.

– Férias!

– O que?

– Férias! É maravilhoso. Está aí: é uma coisa que é só boa, sempre…

– Ah, nem sempre

– Claro que é. Livre da escola, de arrumar coisas, de acordar cedo…

– É bom ser livre?

– A gente tem mais escolhas…

– E isso é bom?

– Assim a gente tem tempo para perceber o que está escolhendo.

 

Silencio. Agora era a menina, incomodada, que fazia barulho com o seu pé passando delicadamente na areia. Ela insiste.

 

– Férias só é ruim porque acaba! Essa é a parte chata.

– Não. Férias só é bom porque acaba.

– Como assim?

– Assim a gente valoriza. Aproveita.

– Sério?

– Sim. É transitório. Como final de semana, como um passeio, ou até um chocolate. As coisas são boas porque acabam.

– Então a vida também é boa né pai?

 

Silêncio.

 

 

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