A persistência da memória – Salvador Dalí com filtro e sol, ilustração montagem do autor

 

Com tantas ideias na cabeça, não conseguiremos realizar todas, nada mais natural, pois a mente é muito mais rápida que a mão, mas porque deixamos para trás algumas que consideramos tão importantes?

Ideias na cabeça de um Glauber e uma câmera na mão e temos uma obra de peso, ideias na cabeça de alguém que sonha e não realiza, zero obras.

Tive um professor que retrucava, quando dizíamos ter uma ideia: – Ideia até cachorro tem, o que importa é o “como”, como será realizada.

Por falar em cachorro, conheci um poodle, o Didi, que ao ser podado no verão, sentia-se pelado e lá ia ele andando por debaixo das mesas, atrás das poltronas e sofás envergonhado, era visível, cabisbaixo deitava em qualquer canto que ficasse fora do nosso olhar.

Quem procrastina age de maneira semelhante, esconde-se de si mesmo, evita poças de água, espelhos e janelas de vidro, pois procrastinar, essa palavra com cara de palavrão, corresponde nada mais, nada menos que a velha expressão: empurrar com a barriga, derivada do latim pro que significa à frente e cras, amanhã, formando pro cras, que no sentido literal quer dizer, deixar para amanhã.

Curiosamente num curso com o Henfil, ele disse que funcionava na base do cachorro raivoso, uma metáfora do esgotamento do tempo de redação para criação de uma charge diária, o cachorro ia se aproximando, babando os minutos que iam escoando e no último segundo a inspiração suada se apresentava antes de levar a derradeira dentada do fim do prazo.

E se lançarmos mãos de uma expressão conhecida, o inverso, não deixe para fazer amanhã o que você pode fazer hoje, podemos exemplificar a cisão do nosso entendimento intelectual da obviedade prática deste ditado popular, não adianta blá-blá-blá para quem procrastina porque esse amanhã pode nunca chegar e virar uma verdadeira postergação, claro que dizer nunca é sempre radical e generalizador.

A procrastinação como meio de vida não é uma via de mão única e sim uma bifurcação, quando temos que render, produzir em quantidade, procrastinar nos levará ao buraco, porém se é uma tarefa criativa, pesquisas indicam que a procrastinação leva a divagação e essa a pensamentos divergentes, que seria imaginar um sem fim de ideias para resolução de um problema.

Seja como for ninguém procrastina tudo, o cerne do problema está na prioridade, pois um bom procrastinador deixará para depois o que realmente tem que fazer agora e se ocupará de outras coisas, desde hobbies, como arranhar um violão, plantar cactos ou levará a termo alguma tarefa inusitada como contar as frestas da veneziana ou consertar aquele velho abajur.

Minha mãe tinha um bordão na ponta da língua, quando eu falava, ah, mãe sabe que eu pensei em fazer assim ou assado, isso ou aquilo. Ela: – E porque não fez? Meu pai fazia e eu sonhava fazer.

 

Iniciei um texto nonsense sobre o processo da escrita no ambiente virtual, pensei em fazer assim, não fiz, ecoou então na cabeça um nítido, e porque não fez?

Porque o processo de procrastinação ocorreu de maneira natural por aqui mesmo em duas fases, sem precisar descolar a bunda do assento:

Fase 1: ouvi músicas com anúncio, assisti uns filmes com anúncios no browser do programa, baixei umas imagens de um site com anúncios, dei um rolê nas redes sociais infestada de anúncios,

Intervalo vaso sanitário: vomitei ao ler as notícias das procrastinações do congresso nacional contra as votações a favor dos próprios parlamentares e não do Brasil com anúncios intercalados, em pull down, em gifs animados, em vídeo, em splash! Etc.

Intervalo gastronômico: pedi um japa no delivery com anúncios de ofertas,

Fase 2: fucei sites de compras com anúncios de antigas pesquisas, me perdi na realidade virtual gratuita com anúncios em 3D e por fim esbarrei a seta do mouse num ícone na barra inferior da tela ao tentar fechar um anúncio móvel e um editor de textos abriu sem querer, era um sinal, anunciei a mim mesmo, estava decidido, começarei a escrever amanhã.

Poder trabalhar em casa é bom, se você me pedisse um conselho eu daria este, tome cuidado nas reuniões mais formais como as de terno e gravata em não levantar para pegar algo esquecendo que embaixo dessa formalidade toda você está de cueca ou mesmo pelado.

Observe o grau de procrastinação em que você se encontra, a descontrolada pode deixar você na lista negra da chefia, correndo o risco de perder o cliente, perder a credibilidade e consequentemente perder o emprego.

Mas procrastinar é sem dúvida um ato psicológico, aí que a coisa complica, aí as razões tornam-se mais delicadas, aí estamos num terreno pantanoso porque finalmente, aí que mora a coisa.

Porém o grande problema da procrastinação é perder as pessoas. E pessoas perdemos de diversas maneiras, mas principalmente por conta da procrastinação emocional. Um dos conselhos mais usuais que corre por aí é o de dizer para as pessoas queridas que amamos elas, que nos importamos, antes que seja tarde, pois tudo que realizamos aqui nessa vida tem prazo.

Não só procrastinamos a expressão de sentimentos, procrastinamos ações de gentileza, de darmos atenção, de carinho e de amor, ou seja, procrastinar neste setor é como colocar a nossa vida à deriva sem colete salva vidas.

Sei que não é fácil sair falando que ama a todos que você verdadeiramente ama, receberá olhares tortos de desconfiança, olhos esbugalhados o encararão, pessoas sumirão do seu convívio, pois algumas não suportam demonstrações literais de carinho, não sabem lidar com isso.

Mas não passe essa responsabilidade aos outros, sei que é difícil ser natural ao falar dos nossos sentimentos, principalmente em dizer eu te amo, as vezes a facilidade de alguns pode dar a impressão de ser algo falso ou corriqueiro como dizer bom dia no elevador, nada é fácil nesse terreno.

Creio que se você iniciar o processo de encantar as pessoas com o seu amor, isso o colocará imune a rejeição, pois quem tem amor para dar, na verdade não sofre de carência, pois estabelece uma relação sem medo, sem receio de perder algo, de perder as pessoas, pois como todo mundo sabe, todo relacionamento depende de duas pessoas, mesmo assim, as vezes você será abandonado, ignorado, mas não há de ser nada, lamentará pelo outro declinar desse amor, amando.

Se em algumas situações nós podemos mexer alguns pauzinhos, outras não estão ao nosso alcance, deixar brilhar esse sol no coração mesmo nas horas mais difíceis como a separação temporária da morte e alcançar um estágio amoroso permanente não é para qualquer um, eu no caso estou muito longe disso, que essa crônica então seja uma lembrança, uma persistência da memória, uma homenagem póstuma ao apoio, carinho e amor incondicional que eu sempre recebi dos meus pais nessa vida!

 

Para o meu pai cujo exemplo abriu o meu caminho para as artes, inclusive para o sol no coração!

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