Se pudéssemos controlar o tempo, agora não estaria aqui, tentando ultrapassar os limites da procrastinação. Já foi, passou. Ele pensava, sentado na pedra gigante, bem perto, dentro do mar.
Aquelas ondas batiam e agitavam seu pensamento. Havia laços que uniam o ponto perdido no interior das montanhas, dos caminhos sertão a dentro, quase sem poder olhar por fora. Desconexas margens do rio, acima e abaixo. Quanta estrada!
Parou em frente ao açougue, desceu do carro, fez a pergunta ao homem que manipulava o corte, o instrumento brilhava, íntimos carne e osso. Ele respondeu prontamente, mas a arrogância do urbanóide não ficou satisfeita, entendeu o que queria entender e transferiu para o homem o nome que ele não tinha pronunciado. Reproduziu três vezes, e o homem com a faca na mão, tranquilo, não hesitou em entregar três falas contínuas com o endereço certo. A expressão daquele homem, que estava perdido, não retribuíra a dose de solidariedade ao voltar ao volante. Abriu um riso sarcástico, o que esperava ser a certeza da imortalidade.
Ao lado do comércio de carnes, outra loja convidava o seu olhar para a vitrine. Ele achou estranho, parecia que era uma imagem colada no seu para-brisa. Ficou imobilizado por alguns segundos. A beleza do quadro derretia rápido. Olhou várias vezes para dentro e parecia ver um rapaz; tentou mais uma vez e surgia uma delicada fotografia; do vazio ressurge o homem da outra loja. Era melhor descansar um pouco. O pensamento escapara pelos dedos; não tinha o hábito de observar os detalhes. Bem perto, dentro da loja, o destino respondia-lhe prontamente, sem precisar floreios com as palavras, era literal; sobre o balcão, a simplicidade preenchia o ambiente. São orquídeas! Várias! Felicidade pura!
Por sorte, o rádio do carro começava a tocar Nando Reis. A Cidade surge dentro de outra, e o bairro de Laranjeiras salva aquela alma perdida nos ventos de Minas. Ele saiu do carro, voltou-se para o açougueiro, agradeceu. Disse que entendera o generosidade do nome. A face já não era a mesma, os passos mudaram, os gestos ficaram mais atentos. O homem olhou nos seus olhos, balançou a cabeça com movimentos silenciados, entregando para sua filha outro vaso de dendrobium.
A imagem que sempre aparecia nos seus sonhos evaporou-se, o que entendia como pensamento não era mais tão relevante. A única coisa que pensava realmente era que precisava voltar, subir o elevador e dizer: TE AMO!

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