Um barulho surdo é ouvido pelo vigia, nos fundos do cemitério da pequena cidade de Passa Quatro. Ele já sabia o que era, ou melhor, quem.

Foi historia triste, dessas que se conta numa pequena birosca animada e todos querem ouvir, mas se entristecem ao final, ficando pensativos e que aos poucos se recolhem às suas casas para abraçar quem amam e agradecer.

O autor dos ruídos noturnos e discretos é Guilherme, que pulava o muro todas as noites para fazer de cama a mesma lápide banhada durante todo o dia pelos raios de sol, morna,  e de alguém que jamais esquecera.

Enlouqueceu depois de dias vagando pelas ruas após o enterro daquela que ele desejava que fosse a sua melhor amiga e mulher para toda a vida. Ela estava até melhorando, já se alimentava bem e havia recebido alta médica semanas antes… Transformou-se num morador de rua, entristecendo os pais e seu único irmão que mudou-se da cidade para não conviver com aquela cena diária, perambulando à procura de restos e bebida.

Os dias são assim para Guilherme. Roupas rotas que só troca por que sua mãe deixa, vez em quando, de propósito, sobre a lápide, juntamente com algum alimento que ele mal encosta. Seu choro tímido, tarde da noite, é ouvido pelo vigia que às vezes chora também, lembrando-se de quando juntos jogavam bola no colégio, da sua alegria contagiante e do quanto amava aquela pequena, branca e bela mulher de olhos penetrantes, cor de mel.

A mãe de Guilherme é vista andando pela madrugada, uma ou duas vezes na semana, quando escapa da vigilância do marido. Vai até o muro dos fundos para ouvir e chorar também, sendo percebida, numa parceria sufocada e que só eles entendem e precisam. São os únicos momentos juntos, implícitos e compartilhados, de maior dor e maior amor que a loucura os permite ter.

Coisa de mãe, coisa de amigo, coisas da vida

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