Eram dois olhos que disparavam em minha direção na mesa de um café portuário. De mim nada sabiam a não ser a luz firme do crepúsculo que iluminava o açúcar espalhado sobre minha mesa que se misturava com pó de outros frequentadores do Café dos Arcos. Lugar de marinheiros, viajantes e habitantes locais que levantavam seus copos de líquidos desde os mais escuros até chegar na água mais cristalina. Cada uma com sua bebida sendo tragada segundo o gosto de cada língua.

Alguns clientes solitários sustentavam seus jornais com a notícia trágica de que uma ponte havia caído, e com ela carros, caminhões e motoristas, matando mais de trinta pessoas. E as vozes eram o mais do mesmo “outra negligência da máquina estatal” – diria um velho com seu chapéu branco Panamá com entradas para embarcar na ilha de Corfú em um punhado de minutos.

Enquanto isso, sentando com as pernas separadas numa mesinha na calçada do porto com alguns gatos esperando por descolar um lanche, reparava na moça solitária com seu vinho branco. Seu par de olhos parecia dois girassóis cabisbaixos atingidos pelo sol rutilante do crepúsculo.

Bebendo meu líquido forte e escuro, esperando o espetáculo do pôr do sol refletido no olhar da mulher acabar e, assim, pagar a conta e atravessar o mar Adriático à procura de algum lugar onde o silêncio se apoderasse de mim, ou que pelo menos pudesse afugentar meus pensamentos da lápide morna que havia conseguido deixar e junto com ela aquela moça de olhos penetrantes.

Repensando minha vida, dando voltas na colherzinha de prata, no gato que se esfregava na minha perna, na luz, nos olhos de tantos clientes e nas palavras que trafegavam entre os arcos do café, paguei minha conta e saí em direção à barca.

Uma vez na barca e instalado na cabine sem vista para o mar, o café bebido não me impediu de entrar num sono profundo. Dentro da moldura do sono, dormia numa lápide no meio de flores velhas e velas derretidas. Sentia um chumaço de cabelos entre meus dedos, eram cabelos pontiagudos. Depois rocei um nariz e uma boca diminutos. Na boca a língua queria dizer algo, mas só jorrava sangue. Estava deitado e me vi coberto e acalentado daquele líquido que pronunciava o fim de uma vida. O fim de um ciclo entre nós. O que se queria dizer era um “Adeus”.

Despertei do sono dentro da cabine todo suado e depois de uns minutos havia me esquecido do sonho, do sangue e de mim deitado num cemitério. Enxaguei meu rosto e me vi disposto a não mais mergulhar no silêncio, a não mais esquecer o acontecido, e entrar no mantra “o que está feito está feito”, e simplesmente aceitar o passado, minha história.

Viver esta tarde nesta barca, mergulhando numa nova possibilidade de mim. Navegar era preciso.

Dirigi-me ao convés para ver o mar e as ondas que fechavam seu ciclo e iniciavam outro ao arrebentar-se nas águas salgadas.  Do alto avisto a mesma moça do café do porto com um livro na mão e aquele seu jeito de olhar.

 

{Foto da cidade de Genova, Itália – retirada do site Flickr.com}

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