Esta história eu te conto porque foi o último pedido do moço que me pediu. Sim, sou um peixe e posso falar na sua língua, seja em catalao, francês ou espanhol. Talvez você pense que isso é só um truque pra que você nao me tire pra sempre da água e nao me mate só pra satisfazer seu desejo pela minha carne, mas enfim, vou te contar e depois você decide o que fazer.

O moço que conheci em seus últimos momentos de consciência no fundo de meu mar me dizia que nao era sempre que vivia (ou morria) ali ao meu lado. Na verdade, costumava caminhar sobre a terra, jà tendo passado por florestas, montanhas (me parece que até entao havia chegado a 3.776 metros de altura), e diferentes cidades, principalmente com nome de santo. Mas momentos tocantes também teria vivido em cidades que tinham nome de rio e de flor.

Em sua agitada cidade santa, ele conheceu uma brilhante ave de passagem por sua terra, que o guiou por uma trilha de nuvens, a princípio brancas e fofas, com ampla vista para o Sol e para todas as cidades lá abaixo, às vezes em tempestade, mas sempre em caminho flutuante para o alto.

Nunca havia conhecido uma trilha que o guiasse tao alto, ao sinal do sorriso de sua ave timoneira. Suas nuvens adquiriam o formato de um navio, um navio voador, em que velejava atravessando como que oníricas pinturas de Salvador Dalí, possivelmente elas mesmas reproduzidas como reais, ou as fontes originais que teriam inspirado o pintor surrealista.

Lá do alto, todos os problemas das cidades pareciam tranquilos para se lidar. Porque estava com o belo navio flutuante formado com sua nova companheira. Esse navio era composto de confiança mútua, ou seja, ao fim, suas almas, material mais propício e sólido para tal construção imponente, fortificada e veloz. Estava protegido no alto do mastro e no convés, e com sua luneta observava os confins do planeta.

A ave estava acostumada a voar só e com outras em épocas de migraçao, mas necessitava da força terrestre do marujo para construir essa embarcaçao poderosa que singrava pelos céus. Nunca ela havia visto algo assim antes de sua coautoria.

Navegavam velozes, com as velas produzidas e impulsionadas por poesia e conhecimento do que pesquisavam pelos ares intercontinentais. O marujo voador passava a criar penas e bico, a ave partilhava das artes cultivadas em horta no navio, e estabeleciam comunicaçao e ponto de passagem para outros animais por cujas estradas cruzassem, como pégasus, dragoes, vacas e porcas aladas, como uma Arca de Noé do século XXI. Respiravam dos mesmos ares.

Porém as nuvens partilhadas foram crescendo em tempestades, o navio foi se tornando mais pesado. A ave voava de quando em quando, deixando o marujo às nuvens vazias como companhia, até que decidiu que era momento de partida definitiva para nova migraçao. Sozinha, em uma corrente de ar independente. E a poderosa embarcaçao, que parecia sólida e digna de um futuro impecável para tesouros híbridos, foi se desmanchando, sem a liga da confiança de ambos, até despedaçar-se em ruínas.

O marujo voador nao sabia voar, mas nunca havia chegado a tao alto nos céus. Nao podia mais pisar no solo, a que se acostumara antes. Sua queda poderia tê-lo espatifado de vez nesse sólido citadino, mas flutuavam sobre o mar no momento da desintegraçao. É aqui que entro eu.

O moço nao sabia nadar, e mesmo que soubesse, sua trajetória o levou até muito fundo de nossas águas. Afogava-se mais e mais, por meses na escuridão; seus projetos artísticos e construções tinham ficado no navio. A sede que sentia por nuvens cálidas o encheu demasiado com borbulhas marítimas. O marujo que estava acostumado a voar, afinal encontrou seu destino aquático, ainda que sem barco.

Possivelmente por conta de sua temporária Arca de Noé remodelada, foi capaz de estabelecer alguma conexao também comigo, em uma de minhas andanças pelo fundo do mar. E assim, em sua última energia de jorro poético, épico e onírico, me contou esta história, que passo adiante.

Bem, ele também recomendou que meu ouvinte lesse o livro “What do a fish knows” (O que um peixe sabe), do biólogo etologista britânico Jonathan Balcombe. Talvez o leitor se surpreenda. E se for mesmo me tirar da água de vez, ao menos me leve até esse cara, que o ex-marujo voador disse que ele teria um tantinho a mais pra aprender comigo.

(imagem: Concept para o curta ‘Evol’, arte de Callum, deviantart cmwelsh89)

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