O tédio me consome de forma inevitável e previsível, mas isso nunca me incomodou… até hoje.

Esta penumbra representa a única coisa que conhecia e preenchia meus dias e que eram divididos apenas entre um adormecer e um despertar, nas mesmas águas frias e de outros milhares similares a mim, nas profundidades. Isso tudo me entristece agora, muito.

Não posso dizer que é escuridão propriamente, mas é a palavra que mais se aproxima por enxergar sempre a mesma coisa, do mesmo jeito, feito um negativo de filme antigo, fantasmagórico. É, peixes como eu conhecem coisas dos humanos, em detalhes assustadores após situações estranhas, mesmo parecendo absurdo para você. Bem, vamos seguir com o que interessa no momento.

Eu nadava (sem destino como sempre) em busca de algo para comer, bem no fundo lamacento, empurrando daqui e dali e percebendo a textura, o “cheiro” que identificava fazendo a água passar pelas minhas guelras viscosas e engolia, rápida e convulsivamente, aquilo, dia após dia.

Pesado da refeição misturada com lodo e algas me escondi em alguma fenda de corais lisos para não virar comida também. Foi quando algo reluzente começou a se aproximar, como se tivesse vindo da superfície, em linha reta sobre mim. Tentei fugir, mas assustado fiquei preso num estreito trecho, travado e tenso. Aquela luz me envolveu e dormi.

Acordei de súbito, ainda lembrando e achando ter sido um sonho, mas estava preso no mesmo lugar, levemente ferido. Algo havia mudado na minha mesmice emocional. Uma ânsia percorria minha pequena estrutura que a desconhecia. Era uma espécie de euforia. Desvencilhei-me dos corais e me arrastei pelo mesmo fundo de lodaçal conhecido e vi os restos brilhantes de um navio que não tocava o lodo. Eu queria me afastar…não consegui. Entrei e fui içado por um túnel de luz que me cegou um segundo depois de ver o que identifiquei posteriormente como cores.

Acordei novamente, acreditando imerso num sonho dentro de outro sonho. Senti o meu ferimento (caiu a primeira crença) e em seguida desprezei profundamente aquele lugar, o mesmo onde cresci e vivi, foi-se a segunda. Não foram sonhos ou delírios e as lembranças da superfície, com braços e pernas, luzes, cores, sol e voos nas alturas, estavam mais vivos do que poderia eu imaginá-los ou criar.

Segui meus dias sufocado depois de tudo, inconsolável.

Agora que já vomitei minhas razões, resta-me apenas enfiar-me na lama mais densa e profunda até que minhas guelras fiquem imóveis, nada possam filtrar, nem mesmo o ar e quem sabe eu volte a superfície, pois aqui nada mais existe para mim.

Anúncios