Ilustração montagem do autor

 

No começo, ou melhor, todo recomeço é complicado. As coisas não estão exatamente por fazer, temos que refazer com o que sobrou, como acontece com a nossa roupa preferida, sempre no corpo e quando não, a primeira opção no guarda roupa depois de lavada, acaba naturalmente desgastando mais rápido que as outras.

Um dia percebemos um pequeno furo, talvez uma linha solta, um esgarçado aqui, engordamos ou emagrecemos e recorremos ao espelho para que a nossa imagem refletida diga algo sobre essa nova sensação de estranhamento.

Isso, estranhamento, tal como aquele exercício que você me ensinou sobre desconforto, cruzamos os braços normalmente de um mesmo jeito, vamos… nada de timidez, cruze os braços, isso! Agora descruze e cruze ao contrário. Percebe o que eu estou querendo dizer? Não, você não pode perceber.

Achei difícil reconhecer sua memória nas ruas estreitas, da mesma maneira que eu tento me acostumar cruzando os braços ao contrário, resolvi depois de anos procurar novos caminhos. Eu saía sempre pela direita, agora pego a travessa da esquerda.

Essa cidade foi construída ao sabor dos ventos, uma casa querendo se esquivar da outra em busca do sol, sem o menor planejamento. Um caminho só, todos esses anos, talvez fosse uma medida sábia dentro desse labirinto, mas percebi que não importava o caminho que eu fazia, uma hora ou outra, lá estava eu, bem diante da calma das casas brancas balançadas pelo mar.

Encima da pedra de onde víamos dois corredores entre três casas, o mar entrecortado pelas paredes parecia ondular com as casas num movimento assíncrono. Era quase que o nosso segredo desfrutar desse balanço, até que um dia você resolveu dissecar essa visão. Descobriu que as sombras das árvores nas paredes das casas quando ventava ─ curioso que sempre venta por aqui ─ é que proporcionava aquela sensação de movimento e não o mar.

Pronto! Isso bastou para que as sombras ganhassem o protagonismo que nós dávamos as ondas findando o mistério. E a partir daí elas passaram a agir como os gatos que, como então, continuavam a dominar a cidade, imortais.

Sempre é difícil recomeçar desejando que volte a ser igual ao que era antes. Passada a fase de rememorar, afinal já fazem uns anos inserindo memórias, acertando jeitos e trejeitos, procurei partilhar o que tínhamos em comum assim como as nossas santas diferenças.

Percebo agora a distância que ainda nos separa daquele tempo. Às vezes é uma distância impalpável, penso nela como microscópica, uma nano distância, porém o seu olhar parece estar a anos luz.

Chega descompassado, sem a sincronia que havia antes. Lembra como era? Como às vezes o sol se punha entre as montanhas? O encaixe perfeito, as montanhas azuis e o alaranjado no céu, em miríades de tons complementares num curto espaço de tempo.

Lembra que combinamos de nunca registrar aquele momento? Vivíamos o presente. Se o dia estivesse nublado, carregado, a chuva se anunciava como os pássaros que fugiam em bandos num balé de exuberantes formas em deformações hiperbolicamente elipsoides que me lembram agora os algoritmos do pulsar do seu coração desenhados no visor do seu peito.

Sei que você ainda não entende muito do que eu digo, estabelecer suas memórias a partir das minhas, cria uma redundância não apenas desnecessária, mas incômoda. Esse incômodo, só eu sinto, não posso partilhar. Fico relutante em programar você para ter sensações desagradáveis ou sentimentos ruins, talvez aí esteja o meu erro ou o abismo que nos separa.

Mesmo o que é um desfrute nessa vida parece inatingível, como programar o sentimento de quando esperávamos a tempestade nos procurando entre os lençóis? Amanhã irei a capital ver olhos que tenham mais sincronicidade em captar as nuances da luz na íris. Se tudo der certo, aí poderei te ensinar a sorrir novamente com os olhos, como você sorria.

Quanto tempo irá demorar eu ainda não sei, não tenho nem ideia. Existem código abertos, algumas passagens de parâmetros para estabelecer canais de comunicação entre as rotinas que eu posso baixar. Mas o problema é compatibilizar as mesmas com o ritmo do seu piscar. Seus olhos piscavam como uma borboleta abrindo e fechando as asas quando está pousada numa flor, irregularmente lindo, alternando a rapidez com a câmera lenta.

Não adianta descruzar os braços e cruzar novamente, você sentirá a mesma coisa, sei o que você quer, mas se eu der isso a você, em seguida vai querer experimentar um pouco da melancolia que eu que você tinha que de certa forma eu incentivei com elogios, pois fazia parte da sua beleza.

Porém um olhar melancólico, não é apenas um olhar melancólico, envolve muito mais coisas e no degredo da sua vontade perdi você aos poucos.

Desculpe interromper nossa conversa, mas tenho que retirar e levar os seus olhos, servirão de parâmetro para regular os tons, assim poderei trazer os novos calibrados. Nem imagina o trabalho que deu para acertar estes que você tem, na verdade era outra tecnologia, quando comecei não havia muitas opções.

Demorei? Não foi premeditado, mas não resisti e cheguei à praia, ao horizonte rochoso onde frequentemente descansávamos, olhei nos seus olhos e me surpreendi. Sim seus olhos novos estão aqui, hoje estou muito cansado, prometo que amanhã os irei instalar na primeira hora. Se eu não conhecesse você a fundo diria que está um pouco ansiosa, mas isso é impossível, não é?

Sabe… na pedra ouvi o riso de uma criança, ao longe, um pássaro de inverno migrou… pensei, esses eram mesmo os seus olhos, pareciam sorrir… com alguns ajustes eu poderei reviver o seu olhar dentro do meu. Naquele momento eu pude relembrar de quando nós caminhamos juntos, finalmente, de volta para casa pela última vez. Quem sabe um dia.

 

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