Era mestre no fabrico de memórias. Ninguém as tecia como ela. Poucos tinham a capacidade de armazenar pequenas tolices cotidianas transformadas em poesia. Ela conseguia. Por isso, às vezes se sentia boba.

Um olhar prolongado, o desenho amendoado de uma pinta, um buquê de rosas atirado na sarjeta, uma risada, o som do coração de alguém batendo, um aconchego… Tudo, na sua percepção virava algum tipo de preciosidade a ser guardada e evocada quando fosse mais necessária.

Agora precisava muito de uma lembrança boa o bastante para aplacar a tristeza que sentia. Tinha sido um processo difícil e agora que tudo estava acabado, sentia-se um pouco vazia.

Decidiu andar na praia, porque a imensidão aplacava seus sentires. Os pés libertos dos sapatos de salto alto dançaram e ela enterrava-os a cada passo, calçando-se de arreia salgada. Lembrou-se de quando era criança e afogou-se numa onda, sendo arrastada até a praia, onde tossiu até seus pulmões doerem. Aquela não era a lembrança que estava procurando.

Pensou no dia em que caminhava na praia com Bruno e ao achar uma concha ainda habitada, segurou o molusco diante dele. O animal esguichara algo em Bruno e ela rira muito da cara dele. Com uma careta, disse a si mesma que era dolorido lembrar-se da sua felicidade. Não era essa memória que queria.

Mil recordações surgiram ao longo do caminhar, mas nenhuma delas parecia a adequada àquele momento. Então se sentou, exausta, numa duna, observando um navio passar ao longe.

De repente, um beijo molhado em seus dedos das mãos. Dois olhos amendoados fitando-a com o amor e a esperança estampados. Seus dedos percorreram o pelo caramelo.

O cachorro ficou ali, uma súbita alegria num meio de tarde qualquer. Mais uma simples lembrança para a coleção que ela ostentava. No final do dia partiram, deixando para trás pegadas que traçavam o começo de uma nova associação eficiente entre seres fabricadores de memórias da melhor qualidade. Sua alma se aquietara e se agitara, pronta para colecionar os momentos que viessem a partir de então.

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