Era a obrigação dele e nem a sentia assim, pois fazia por prazer, lembrando da sua adolescência quando protegia seus irmãos menores e um basset virado no capeta, na praia do litoral nordestino.

Agora ele está adulto, corpulento, habilitado nos mares e nas marés por uma carta náutica e vários cursos de salvamento em alto mar. Ficou onde era confortável apesar do pai insistir que aquela profissão era para vagabundos que “amavam a vida sem fazer nada, tirando ocasionalmente uma bela mulher das águas”. Ele ria e riu mais ainda quando, na prática, viu que não era bem assim que as coisas aconteciam. Nos treinamentos então, tudo diferente e tenso. Simulações agrestes e imprevisíveis o lançavam de dentro de um helicóptero para resgatar uma “vitima” de águas turbulentas e longínquas. Pior quando eram lançados em áreas também distantes, à noite, para retornarem a nado (sem amparado algum). Uma das vezes pensou em desistir. Teve muitos momentos gratificantes, de honras e menções honrosas e também de perdas inevitáveis, além de ter feito inúmeras boas amizades e namoros inesquecíveis.

Hoje ele está entre essas lembranças, quando vê uma moça muito bonita se mexendo estranhamente em sua toalha de praia. Pensa em epilepsia, mas descarta a hipótese já que ela não faz seguidamente movimentos bruscos. Fica olhando-a sem tirar toda a atenção de um cidadão que nada mar a fora, em linha reta, preocupando-o e um garoto que parece querer aprontar algo mais, além de ficar na beirada.

Ela mexe-se de novo. Parece agitar algo com os braços. É, está sonhando, certamente, e sob um sol começando a ficar mais quente. Ele quase se levanta e vai até ela, mas enquanto o cidadão que nada desavisado não voltar…

Agora ela se agrupa e coloca a mão numa das pernas, como se quisesse retirar algo e logo se estica novamente protegendo uma das mãos com a outra, como se ferida estivesse. Ele ri e fica mais interessado ainda, vendo-a envolta em areia e bagunçando a sua bolsa de praia com algumas coisas saindo. Ele pensa: Vou lá,  a acordo, pergunto se está bem e quem sabe puxamos um assunto e eu possa conhecê-la melhor outro dia. Apesar do tamanho, parecia uma menininha tal o jeito em que se encontrava. Será que tem namorado? – Pensou.

Felizmente o nadador está voltando e ele já pode ir até ela “apenas” na intenção de acordá-la. Tarde demais, ela já o fez. Senta-se ajeitando o cabelo, meio sem graça, colocando o óculos e as coisas na sua bolsa e vai embora.

Ele, desolado, vendo-a distanciar-se e rejeitando a ideia de descer e agarrar o nadador que sai da água, pelo pescoço, sacudindo-o. Sorri de novo. Ela vai voltar outro dia para ter outros sonhos…

 

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