Não esperava que pudesse ter a coragem de pular naquelas águas verdes, profundamente oceânicas. Vencêramos a perda de som, só não tínhamos superado a derrota dos votos e a manipulação das informações, mas a festa era nossa, só dependia de nossas cordas vocais. 

Era final de ano, estávamos dentro do barco; já conhecíamos a experiência de beira de praia, da festa de chegada, do bonito desfile da elite encantando os telespectadores pelos tubos da tv. 

Agora poderíamos sair da periferia do Rio de Janeiro, cidade de São Gonçalo, ir para as famosas praias da Costa Verde, e desfilar com muitos amigos em uma escuna alugada pelos mesmos, que trabalhavam e moravam e transformavam aquela Cidade. A embarcação ficou bonita, bem enfeitada por nós no dia anterior, 31 de dezembro de 1990. 

Éramos jovens, alegres e bem humorados. No ano anterior, dezembro de 89, deliberamos que passaríamos o ano novo na Cidade que estava dando um exemplo de cidadania. Resolvemos pintar uma faixa com os dizeres: “FELIZ 1995!”, precisávamos fazer o luto, tínhamos o direito à felicidade. Alguém disse: “Vamos levar a faixa!”  Então, foi assim, levamos. 

Chegando lá, para nossa surpresa, um rapaz, em um pequeno barco, perguntou se poderia levar a nossa faixa. De  repente, ela estava lá, gigante, enfeitando o barquinho,  no meio daquelas  naus. Assistimos da areia à festa. A faixa nos representava; festejamos felizes, era a possibilidade de resistir ao novo ano. Acordamos  que voltaríamos, mas o desejo era estar dentro do mar, da festa. 

Ganhamos em 90 o prêmio da embarcação mais alegre; na realidade, foi superação, energia de todos, pois o som havia pifado. Em 91, voltamos mais uma vez, caprichamos na decoração. Ganhamos! 

Quase me afoguei, depois levei um tombo após errar um degrau da escada que levava para a praia da ilha. Não sei como sobrevivi. Não me lembro de ter conseguido voltar para a escuna. Quando acordei,  já estava no segundo dia de janeiro, voltando para casa. 

Pensei em passar mais um final de ano ali, mas começava a achar perigoso, poderia fazer muito mal ao gozo alheio.

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