Ali, naquele pequeno território, caminho ainda de terra, a minha existência tomava conta do movimento que acontecia lá embaixo, no asfalto. O dia foi muito estranho. Um silêncio perturbador, parecia que os corações anunciavam uma nova temporada. Era 12 de novembro. 

Gostava das noites de balões, o céu ficava enfeitado, ainda não havia perigo de algum cair pegando fogo. A igreja, inacabada, sempre com muitos casamentos aos sábados. 

Fiquei parado, encantado com a maior nave que eu já avistara, e ela descia lentamente. E agora? O que fazer? Precisava despistar minha mãe. Daria tempo? Eu gostava de inventar o tempo, era a  minha maior diversão. 

O balão descia lentamente em direção ao mar, as luzes ainda estavam acesas, era a maior caravela  cibernética que eu tinha visto até então. Esse era o cara! Eu precisava pegá-lo. Tinha que ser o meu dia de sorte, ninguém estaria vigiando-o. O tempo varria rápido, quase que eu não o controlara mais. Inclinei um pouco o corpo e consegui ver a linha que passava bem perto, arrastando no chão; ele cairia no mar, com certeza. Mas a guia… Eu poderia senti-la. De repente, não sei de onde, surgiu uma multidão de barcos. Como conseguiram chegar? Era a minha única chance, seria a primeira vez. A guia, eu precisava achá-la. Eles flutuavam em direção à  nave, e eu corria segurando o tempo e procurando a linha. Seria a melhor estratégia. Havia um pouco de neblina, e a espuma estava densa, iria demorar para se desmanchar. Aquele era o mundo, ninguém o destruiria. 

Fiquei imaginando como seria a vida sem os balões, sem as composições, os desenhos, os pensamentos que construíram tantos jardins que se bifurcaram em poesias. É possível um dia não termos mais poetas? Quase meia-noite, uma estrela cadente cortou o meu pensamento, e a guia passou entre os meus dedos. Segurei com toda minha força, essa era a minha vida. Os outros barcos me ajudaram, a caravela cibernética era minha, mas não somente minha. Ela voltaria para o céu, com novas inscrições, quase sem espumas.

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