O balão subia pela primeira vez naquela pequena cidade do interior do Chile, cercado de medidas de segurança e doze tripulantes na sua cesta, cada um cuidando de alguma coisa. Saia, queimadores, corda da válvula e tanques de propano. Um cesto generosamente grande e uma variedade de sentimentos, objetivos e idades. Cada um alçando voo cavando um anseio, sonho ou apenas curiosidade. Todos treinados na mesma turma e cuidadosamente aproximados. Eu me encarregava do GPS, Armando do segundo, auxiliar.

Já a uma certa distancia e pelo menos uma hora da partida, uma névoa nos engoliu rapidamente e o GPS enlouqueceu. Nada víamos e Elizabeth, agitada, falava sem parar, coisas meio sem nexo. Pelo menos assim parecia. Aos poucos, percebemos que havia sentido no que ela havia dito e pedimos para que repetisse tudo com vagar.

Por alguns minutos nos assombramos com a precisão de detalhes do que falava e com seus olhos arregalados e fixos no horizonte. No curso ela já recebera o rotulo de Bruxa somando as historias que contava sobre suas viagens de balão e de ultraleve, próximas aos  Andes. Imaginação fértil pensamos, mas não, se confirmava agora…

Uma área bem definida dissipara o nevoeiro, como se algo tivesse aberto propositadamente a clareira metodicamente circular, com uns quarenta metros de diâmetro. Um conjunto de luzes desceu da parte mais densa repousando literalmente nesse espaço quase intocável. Sem vento, cor definida e muito menos som. Nosso balão estancou nesse mesmo local, numa ausência de movimento fisicamente impossível. Aquilo era esférico, repleto de cores vagando em nuances belíssimos e harmônicos.  Elizabeth chorava com um sorriso largo e calma. Todos seguimos sua emoção, lembrando das várias vezes que caçoamos da pobre mulher que jamais se abalou com isso. Sorria antes, sorria agora.

Continuou falando, incluindo detalhes dessa nave, como afirmava ser e num giro ultra rápido esta se projetou com um facho de luz na nossa direção, uma rampa, e veio algo bem diferente por ela, só que mansamente. A nossa válvula não expelia nenhum fogo e continuávamos estáticos. Nenhum som, vento ou qualquer outro sinal natural se percebia. Era uma atmosfera própria, inexistente em nosso sistema, quase ou certamente dimensional.

Todos seguiram junto com “aquilo” que se aproximou e retornou levando-os. Eu fiquei. Ouvi por uma fração de segundos algo que parecia ser uma pergunta mental e respondi “Não, obrigado”. A rampa de luz se desfez, a nave girou novamente e subiu abruptamente e a névoa tomou de volta tudo a meu redor. Após alguns segundos se dissipou completamente e me vi retornando a base com a válvula a toda, expelindo fogo como um dragão. Uma rajada de vento me conduzia, magicamente e ouvi nitidamente: “Quando mudar de ideia, suba de novo nessa região e entenderemos”.

De repente o propano acabou e comecei a descer suavemente tocando o solo minutos depois, sem a tradicional confusão que uma descida causa, envolvendo toda a estrutura que se desloca ao pousar.  Envelope (balão), válvula do paraquedas e tudo mais certinho, sem uma só pessoa para ajudar. Havia algo ali me ajudando. O cesto pousou perfeito, sereno e sem tombar. Saltei e esperei a equipe chegar alvoroçada.

Quando chegaram foi difícil começar a explicar o ocorrido. Fiquei tentado a dizer que todos haviam caído em meio a forte ventania. Seria pior do que a verdade?

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