Olga. Era sempre ela, Olga. Demorei quase uma vida para descobri-las, para entendê-las e desejá-las. Brincávamos de  amarelinha, pique-bandeira,  de tudo. 

Não queria que sua lembrança fosse apenas a da escuridão. Naquele tempo, ainda  não havia energia elétrica na cidade, tínhamos que ir para cama bem cedo, ou melhor, na hora em que a luz do sol deixava de existir. Era a senha para acabar com a brincadeira. 

Olga também era minha ancestral. Contava histórias de assombração, de tempestades, dilúvios. Em algumas ocasiões,  eu me via no meio da chuva carregando-a para um lugar seguro. Ela não se acostumava com o barulho dos trovões. Eu já gravara em minha memória as entonações dela, quando raspava o primeiro som perto de nossa casa. Havia um caminho que dava para um abrigo que não deixava a música da chuva passar. O meu coração disparava, a sua mão tremia forte procurando a minha. Calma, vai passar, eu estou aqui. Eu não entendia, ela era a minha fortaleza, mas, quando vinha a água barulhenta do céu, eu tinha que ajudá-la naquele momento. Era o meu desterro. Quanta vida eu precisava criar bem rápido para nós dois…

Compreender o movimento das águas carece de muito olhar o rio. Era um aprendizado. Assim que eu acordava, era a minha primeira tarefa. Compromisso que ela me fez garantir. E eu trabalhava nisso. Achava das mais difíceis promessas. Mas promessa é promessa. 

Pensei em convidá-la para um passeio. Era final de semana, o dia inteiro só para coisas boas; eu queria inventar algum trajeto diferente, para chegarmos ao pico da montanha. Abri a janela e já a notícia que eu jamais imaginara ouvir. Foram embora! Ela se foi. Não volta mais! 

Passei a desenhar a mesma música por várias estações, buscava na repetição uma resposta para o desaparecimento de Olga. Ela foi embora sem se despedir, não deixou um bilhete, um beijo. Eu passava em frente à casa, todos os dias. Olhava com uma esperança de encontrá-la ali, perto do portão. Até que um dia, bem cedo, algo fez com que eu olhasse para cima e avistasse um pequeno girassol surgido do nada. Ela era apaixonada por girassóis. Não pensei duas vezes, empurrei o trinco de madeira e subi. A casa ficava no alto de uma parte da montanha. Perto da flor, encontrei uma seta e um recado: “ É para você o livro do Neruda”.  O livro estava no lugar em que ela sentava para me acenar na hora em que eu passava com meu avô para comprar leite. Peguei-o rapidamente, uma página segurava uma pétala que indicava uma poesia.

Um silêncio profundo tomou conta da minha alma, que nunca mais foi a mesma.